31/08/2017

Sala de aula

© Paulo Catrica (Liceu Sá de Miranda, Braga, 1999)

A sala aguarda a entrada iminente de professor e alunos, ou então a aula terminou há instantes. Os quadros pretos estão em branco, um deles exibe ainda uma nebulosa de giz. Mas estes não são os únicos suportes da escrita. O que se redige no quadro da sala de aula é apagado no termo da lição — como se todo o saber fosse uma escrita na água —, mas cada carteira é um quadro que contém uma escrita permanente, entalhada na madeira a golpes de esferográfica ou com a chave de casa: nomes, datas, clubes de futebol, bandas de música pop, vulgarismos, promessas de amor eterno, garatujas. O tampo de cada carteira devém palimpsesto, precário reduto de desatenção e indisciplina na geografia ordeira da sala de aula.

Este é um de dois verbetes que – a convite do meu amigo Bruno Monteiro (admirável cabeça sobre ombros tão jovens!) – escrevi sobre fotografias de Paulo Catrica para um Atlas Improvável de Portugal (Santillana Editores) que se encontra, como soía dizer-se, no prelo.

29/08/2017

Take yourself lightly

 
 
fotogramas de Angel, curta-metragem de Derek May (1966)

Um fundamentalista raramente se ri — e nunca de si mesmo. Isto deveria dar-nos que pensar, sobretudo àqueles que se declaram ‘religiosos’ ou ‘cristãos’. Todos aqueles que se levam demasiado a sério tornam-se infalivelmente ridículos, e talvez não haja maior sabedoria do que a de aprender a rir-se de si mesmo. Um teólogo dominicano, Herbert McCabe, diz que Deus se diverte à custa dos seus filhos circunspectos, azedos e solenes. Lutero recomendava que zombássemos do diabo e dele ríssemos. (Gil Vicente foi campeão olímpico nesta modalidade.) Devemos fazer o mesmo connosco próprios. Devo fazer o mesmo comigo próprio. Se os anjos conseguem voar — garante Chesterton no seu impagável Orthodoxy — é porque se encaram a si mesmos com ligeireza: Angels can fly because they can take themselves lightly. Afeiçoei-me ao filmezinho de Derek May não apenas porque cada fotograma parece um desenho a tinta-da-china, ou por causa do balanço da música de Cohen. O filme interessa-me porque estas criaturas — homem, mulher e cão — são anjos desastrados: correm, saltam, tropeçam, caem, riem-se, beijam-se, dizem disparates. As asas não lhes servem de muito: não conseguem elevar-se acima do solo, a não ser para se estatelarem. E, no entanto, dir-se-ia que levantam voo. Porquê? Because they can take themselves lightly.

28/08/2017

Caixa de fósforos #03: Herberto Helder

A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caindo sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo…
Herberto Helder — Os Passos em Volta

27/08/2017

Vai, e dá-lhes que fazer.

Na sua Reportagem sobre a Banalidade do Mal, Hannah Arendt relata que Eichmann, o gestor de topo da Solução Final, foi capaz de fornecer em tribunal «uma definição mais ou menos correcta do imperativo categórico», deixando o juiz embasbacado. O verdugo declarou inclusive ser leitor de Immanuel Kant, facto que me apresso a invocar sempre que me vejo na necessidade de me desculpar por nunca ter lido A Crítica da Razão Pura. Em todo o caso, o ensino público conseguiu a proeza de gravar em mim uma versão estropiada de uma das três formulações do imperativo categórico de Kant. (É mais uma homenagem pré-póstuma que faço à Escola Secundária de Águas Santas, aka Escola do Corim.) É mais ou menos assim: Age de tal maneira que a máxima da tua acção possa ser erigida em lei universal. Um sublime ideal, com certeza, mas a minha formulação preferida do imperativo categórico pertence a Kafka e encontrei-a numa carta de Benjamin a Gershom Scholem: «Age de tal maneira que os anjos tenham alguma coisa que fazer.» Acho que ainda não vivi suficientemente em conformidade com este imperativo. Tenho de me lembrar dele mais vezes no futuro, e de me declarar objector de consciência na hora de subscrever um seguro contra todos os riscos.

24/08/2017

Visitações

Os factos reportam-se aos primeiros anos do século XXI. Anos de chumbo: a Baixa esvaía-se de gente por volta das oito, o comércio encenava nas montras a sua ruína e a sua melancolia, os turistas não eram ocidentais — eram acidentais, gente que vinha ao engano. A Praça da Batalha não passava de um ícone lumpemproletário: a praça de A hora em que não sabíamos nada uns dos outros, mas frequentada apenas por criaturas de procedência duvidosa: escroques, delinquentes, carteiristas, velhas putas, escrevinhadores pardacentos, fantasmas constipados. A Rua Alexandre Herculano era a mais poluída artéria do coração da Baixa, albergando uma garagem lúgubre da Rodoviária Nacional. Eu ocupava um escritório ao lado, no último piso de um prédio soturno, viveiro mais que certo de negócios ominosos, de actividades dúbias no que toca a higiene e fiscalidade. Nesses anos — era isto que eu queria contar —, fui vítima de algumas tentativas de assalto. Digo ‘vítima’, mas chutei com o pé que estava mais à mão, como diz o poeta. Na verdade, não passaram de tentativas goradas de assalto. Vou isentar-me de relatar por que infames expedientes me furtei sempre ao furto: levar a melhor sobre um patife nem sempre implica audácia e valentia, às vezes pede o contrário. (Como sucede frequentemente na procura de emprego, o excesso de qualificações pode revelar-se contraproducente.) Embora estes assaltos tenham sido conduzidos por larápios de feições e compleições diversas, dois deles abordaram-me da mesmíssima maneira: o ataque — na acepção musical da palavra — foi igual. Teriam a mesma escola, a mesma proveniência, a mesma missão? Os meliantes declararam, à queima-roupa: «Eu conheço-te.» Uma frase banal, que adquiriu aos meus ouvidos um efeito estarrecedor. Ainda hoje estremeço se alguém me diz isto. «Eu conheço-te.» Um outro disparou esta tão pouco tranquilizante declaração: «Não tenhas medo.» Não combati com qualquer deles e não lhes roguei a bênção no lusco-fusco da madrugada, mas foram as experiências mais próximas que tive do que imagino ser um encontro com um anjo.

23/08/2017

«Excuse me, miss, can I borrow your wings?»


Angel, uma curta de animação realizada por Derek May em 1966 para o National Film Board do Canadá. A música é do jovem talmúdico Leonard Cohen, interpretada por The Stormy Clovers. A dado momento, o rapaz pergunta à rapariga: Where does it hurt? Ela responde: In the wings. Com mais qualidade, não no sítio do costume, mas aqui.

22/08/2017

«Por que razão mo perguntas? O meu nome é misterioso.»

Esclarecimento (quem sabe se útil) sobre a entrada «Meu zeloso guardador»

Não choveram protestos, mas morrinhou uma reclamação amiga pela ligeireza com que taxei a prática católica da oração ao anjo-da-guarda como uma manifestação de «obscurantismo bíblico». De facto, os católicos encontram fundamento para esta prática nas Escrituras, especialmente no livro de Tobite, um texto que desconheço porque não faz parte do cânone hebraico e porque, com o desembaraço próprio de bárbaros e iconoclastas, os protestantes o reputaram como ‘apócrifo’. Confesso-me bastante enferrujado nos bilros para discutir um tema que, tratado com a devida propriedade, nos conduziria a minuciosos rendilhamentos e subtilezas, como aquela distinção operada pela teologia católica entre latria e dulia (adoração e veneração). De resto, com que proveito o faria? Não poderia competir com os dicionários de religião disponíveis, por exemplo, no Internet Archive (consultam-se sempre com interesse os de James Hastings, que já contam mais de cem anos). Apraz-me apenas registar que Antigo e Novo Testamentos se furtam à doutrina estável sobre os anjos: da sistematização e das hierarquias se ocuparam as correntes místicas e o gnosticismo de várias épocas. Encontramos, é certo, um esboço de hierarquia na Carta aos Colossenses (o célebre «Tronos, Dominações, Principados e Potestades»), mas é precisamente nesta epístola que — consciente do perigoso magnetismo irradiado por esses seres alados — o apóstolo Paulo adverte contra o culto dos anjos. O que conta é que, apesar da fascinação (e da enjoativa imagística kitsch) que geram, os anjos são doutrinariamente flutuantes. Também no plano teológico são criaturas com asas, que levantam voo e se evolam sempre que os tentamos fixar, poupando-se a estorvos e maçadas. Quando Manoé, pai de Sansão, pergunta ao anjo qual o seu nome, este responde: «Por que razão mo perguntas? O meu nome é misterioso.» (Juízes 13,18)

20/08/2017

«Alma bem-aventurada, dos anjos tanto querida»

Alma amparada pelo Anjo, rumo à «pousada verdadeira».
encenação Nuno Carinhas (TNSJ, 2012); foto João Tuna

«Gil Vicente é o mais Anjo e o mais Demónio dos poetas portugueses», escreveu Teixeira de Pascoaes, acertando em cheio. Curiosamente, lembramo-nos mais dos seus diabos (de facto, em Vicente encontramos o inteiro repositório das feições que o diabo foi adquirindo, incluindo aquelas com que o demónio assoma em obras como as de Kafka e Walser) do que dos seus anjos, que têm tanto que se lhes diga. Eis um deles, saído desse drama singularíssimo que é o Auto da Alma. Tanto quanto sei, não se encontra em todo o teatro medieval europeu outro drama de uma Alma. A thing of beauty.

ANJO:
Alma humana, formada
de nenhũa cousa, feita
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágua perfeita,
gloriosa.

Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas.

Planta sois e caminheira,
que ainda que estais vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdeira
da glória que conseguis:
andai prestes.

Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais;
um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.

Gil Vicente – Auto da Alma (1518)

18/08/2017

Meu zeloso guardador

Alguém de quem muito gosto — e dependo — contou-me que todas as noites, ao adormecer, dirigia ao seu anjo-da-guarda uma prece que a mãe lhe ensinara quando era criança. Com a minha típica arrogância calvinista, atribuí esta prática ao obscurantismo bíblico em que tantos católicos se autocomprazem, recreando-se num sincretismo morno: consulta-se o horóscopo à hora do almoço, compra-se uma velinha em forma de buda (com o pavio no cocuruto) ao final da tarde e, à noitinha, profere-se uma reza que também a prole de Allan Kardec perfilha. Na ocasião, não censurei a minha amiga, mas o meu sorriso condescendente terá dito a meia palavra que lhe bastava. Contudo insatisfeito, voltei ao assunto dias depois — e pedi-lhe que me recitasse a oração. Para minha surpresa, fê-lo naquele instante. Era, como eu imaginava, uma oração singela, uma versão provavelmente truncada de uma antiga oração ao anjo-custódio. Todavia, a prontidão e a candura com que aquela mulher partilhou comigo a sua oração desarmaram-me. Senti-me envergonhado — em parte por rever em mim a fisionomia daquelas personagens de Flannery O’Connor que desdenham de gente que não tem uma «religião avançada», uma religião purgada de baboseiras, desimpedida de inútil bricabraque: em suma, uma «religião reformada». Mas a funda razão da minha vergonha prendia-se com outra coisa: não ser capaz de me lembrar da última ocasião em que partilhei uma oração com alguém, sem precisar de invocar uma justificação teológica ou literária, como por vezes sucede em aulas ou em ‘ensaios de mesa’ com os actores. Continuo a pensar que, no plano da teologia bíblica, a proliferação de intercessores — Virgem, santos, anjos e toda a corte celestial — redunda na dissolução do papel de Jesus Cristo como único mediador entre Deus e os homens (cf. I Timóteo 2:5 e João 14:6). Ainda assim, estranhamente, espero que esta noite a minha amiga não se esqueça de fazer a sua oração.

Agora que volto a pensar nestas coisas, lembro-me de Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano que foi enforcado aos 39 anos no campo de Flossenbürg por ter participado na conspiração que culminou no atentado falhado contra Hitler. A pedido dos seus companheiros na cadeia militar de Tegel, escreveu «orações para presos». Era um dos maiores teólogos do século, e ali estava ele, compondo breves preces matutinas e vespertinas — e «orações para momentos de especial aflição». É um pouco como pedir a um génio da física nuclear que ensine os rudimentos da aritmética a crianças do primeiro ciclo. E, no entanto, o amigo e confidente Eberhard Bethge concluiu que toda a teologia e toda a espiritualidade de Bonhoeffer foram decantadas nessas orações muito simples — escritas para serem partilhadas.

17/08/2017

Perceber logo

Fazia de conta que não percebia o que tinha percebido logo, o que lhe deu a ilusão de perceber logo o que nunca seria capaz de perceber.

Levar pelo braço

Alguns escritores que admiro têm isto em comum: não há uma única linha que não seja confessional e, no entanto, nunca nos sentimos autorizados a levá-los pelo braço.

16/08/2017

Apologia dos transportes públicos*


Ao meu irmão.

Cresci nos subúrbios do Porto. Durante anos, tive de esperar por um autocarro — o defunto 95, linha dos STCP que nada tinha de linear, ziguezagueando trinta absurdos quilómetros e atrasando-se a cada uma das quase cem paragens — para pousar a planta do meu pé na Praça da República ou na Avenida dos Aliados. Muitas vezes foi-nos necessário (a mim e ao meu genial e genioso gémeo) aguardar 45, 50 minutos para que víssemos despontar da curva da estrada um imenso Volvo laranja cujos travões rangiam como uma besta saída do último círculo do inferno, mas que, aos nossos olhos, assomava no horizonte um pouco como a carruagem do profeta Elias, vindo arrebatar-nos para a ‘civilização ocidental’. Não poucas vezes esperámos uma hora, uma hora e meia, por esse veículo pentecostal que nos conduziria da periferia ao centro. Esses anos não nos instruíram na paciência — na verdade, exauriram-na em tão tenra idade —, mas prepararam-nos para o impacto de uma aparição. (Deve estar quase.)

*Tal como existiam no Grande Porto no final da década de oitenta e no princípio da de noventa.

15/08/2017

Quem ri por último

Dizia coisas em que não acreditava. Um dia, aconteceram. Agora, as palavras riem-se dele, do seu espanto e do seu susto.

O filho pródigo, de novo

Durante muito tempo gostei de dizer — plagiando C.S. Lewis e o seu Surprised by Joy — que me sentia como um filho pródigo que, em vez de regressar à casa do pai pelo próprio pé (como sucede na parábola), é arrastado para dentro pelos cabelos, esperneando e olhando em volta, à procura de uma possibilidade de fuga. Evidentemente, isto não passava de uma ‘pose’, de uma ‘atitude literária’. Mas foi precisamente assim que me senti em tempos recentes: como um filho pródigo que regressa contrafeito (os franceses dizem à contrecœur, ‘contra o coração’) à casa do pai. Deveria sentir-me profundamente grato por isso, considerando o que C.S. Lewis a seu tempo concluiu: The hardness of God is kinder than the softness of men, and His compulsion is our liberation.

13/08/2017

Bullying

O teu pensamento abusa de ti. Mas não percebeste ainda se é abuso de confiança ou abuso de poder.

11/08/2017

Milagres

Viu-os a acontecer. Tocou-os com as próprias mãos. Falou sobre eles a outros.
E nem por um segundo acredita.

10/08/2017

Secos e molhados

Escola do Corim, 1989 (ou 1990). Sentimos um perverso consolo quando, em ambiente aquecido, olhamos pela janela e vemos gente que passa sob uma chuva inclemente de Outono — e o vento cresce e parece que chove mais. Mas eu observava-os do interior da sala de aula, refém de orações subordinadas e subordinantes, e aqueles seis ou sete garotos um pouco insubordinados, encharcados até aos ossos, jogavam à bola e tinham o campo todo para eles. Pouco importava quem ganhava, quem perdia. Ainda hoje os invejo, como não me lembro de alguma vez ter invejado alguém.

09/08/2017

«Eu sou o meio do dinheiro»

Para mim, o dinheiro não é um meio. Eu sou o meio do dinheiro. Passa através de mim — impostos, seguros, hipoteca, pensão para os filhos, renda, honorários de advogados.
Saul Bellow — Herzog (trad. Salvato Telles de Menezes)

08/08/2017

Caixa de fósforos #02: Brassaï e Picasso

© Estate Brassaï-RMN

Fotografia de Brassaï de uma escultura miniatural feita por Picasso em 1943 com uma caixa de fósforos.

Picasso insistiu sempre que fosse Brassaï a fotografar as suas esculturas. Das virtudes do trabalho de Brassaï a que me comove é esta: a sua atenção (quase num sentido teológico) às mais pequenas e, de certo modo, miseráveis esculturas feitas de caixas de fósforos, cartão, pedaços de papel rasgado e pedrinhas. Um destes dias farei aqui um apontamento sobre as esculturas involuntárias de Brassaï.

05/08/2017

A pior ofensa, o melhor elogio



Ao Manuel, ao Tiago e à Meru.

Algumas coisas que nos são ditas assemelham-se àquela vetusta gravura em que podemos ver alternadamente uma velha decrépita de nariz adunco e o perfil de uma jovem glamorosa, altiva. Não me refiro a observações equívocas, de duplo sentido ou infectadas pela ironia, isto é, frases que significam simultaneamente uma coisa e outra coisa, mas a declarações que, a princípio, possuem um valor e, a dada altura, adquirem outro, porventura contrário, podendo ainda, mais tarde, vir a reaver o primeiro, rasurando o que lhe sucedeu — e essa reversibilidade não é endógena à proposição, dependendo antes do seu destinatário. Indemnizo o leitor desta estopada preambular com um exemplo catita. Há uns anos atrás, um amigo mais velho cuja inteligência implacável e sentido de humor (assaz escarninho) grandemente admiro, disse-me: «O Pedro daria um fantástico professor de liceu.» A natureza afável e o rumo da conversa não me autorizavam a imputar qualquer intenção malévola ou depreciativa a este comentário, mas senti que ele me entrava como espada na coragem — vulgo, auto-estima —, pois desde os meus vinte anos que ambicionava esse laureado (e um pouco risível) estatuto de professor universitário, tendo, de facto, iniciado o meu percurso profissional como assistente de um catedrático de Letras, ainda que num instituto superior que mais parecia uma caserna prussiana de baixo coturno. (Uma voz que tantas vezes tento abafar sussurra-me, censória: «Não precisava de ser ‘prussiana’, bastava ser ‘caserna’.») Mais recentemente, voltei a dar aulas — de novo, no ensino superior. A relação que pude estabelecer com os meus alunos (ou com parte deles) fez-me desejar tê-los conhecido mais cedo, aos 14 ou 15 anos. Não porque sentisse, arrogantemente, que chegava demasiado tarde à existência daqueles aprendizes de feiticeiro e que já nada poderia fazer perante a extensão dos estragos causados pelo ensino obrigatório. Mas talvez porque o que realizámos em conjunto se revelaria mais formativo ou, pelo menos, mais proveitoso alguns anos antes. Quando isto se me tornou claro, aquilo que, há muito tempo atrás, me havia parecido um agravo converteu-se num sinal de genuíno apreço. A pior ofensa pode talvez revelar-se o melhor elogio.

04/08/2017

Ainda a propósito do primogénito da Parábola do Filho Pródigo

Em toda a sua vida, nunca se perdeu. Não há qualquer mérito nisso: nunca foi a um sítio onde pudesse perder-se.

Cadeirinha alta

Era como uma criança demasiado crescida para usar uma cadeirinha alta como os bebés, mas ainda não suficientemente grande para se sentar como os adultos à mesa.

03/08/2017

Nota de imprensa

Embora esquisita de boca, a Mosca Fosforescente não é elitista e declara-se solidária com a «vulgar mosca doméstica» (nos lamentáveis termos empregues pelos serviços do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge) que, por estes dias, assola a Comporta. A Mosca Fosforescente sabe, de fonte certa, que os supramencionados dípteros se deslocaram em massa para a Comporta não com a intenção de brincar aos pobrezinhos, mas com a higiénica missão de enxotar um certo tipo de pessoas. (Ao que foi possível apurar, Paulie Gualtieri, Silvio Dante e Big Pussy Bonpensiero mostraram-se indisponíveis para a empreitada.)

Caixa de fósforos #01: Flannery O’Connor

— «De onde veio, Mr. Shiflet?»
Ele não respondeu. Enfiou a mão nos bolsos e tirou de lá um saco de tabaco, um pacote de mortalhas e enrolou um cigarro com toda a perícia, e deixou-o pendurado de um canto do lábio superior. Depois agarrou uma caixa de fósforos do bolso e acendeu um na sola do sapato. Segurou o fósforo aceso como se estivesse a estudar o mistério da chama enquanto ela viajava perigosamente na sua direcção. A filha começou a emitir sons agudos, a apontar para a mão dele e a espetar o dedo, mas quando a chama estava quase a tocar nela inclinou-se com a mão em concha como se fosse lançar fogo ao nariz e acendeu o cigarro. Atirou para trás o fósforo morto e lançou um risco de cinzento no fim da tarde.
Flannery O’Connor — «A vida que salvar pode ser a sua» (in Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, trad. Clara Pinto Correia)

02/08/2017

Crossover


Na estrada de Moguer, sigo perto da meia-noite
ao volante de um crossover, amante japonês
a leasing ― o sonho
da refinaria projecta o genérico da Miramax:
New York by night, com fedor a estrume
e adubos químicos nos campos de fresa.

À janela do arranha-céus em chamas, nenhuma rapariga
sonha uma comédia romântica, ao ver-me
no habitáculo, desrespeitando limites
de velocidade ou nexo ― talvez
um operário senegalês, na bicicleta de Hulot,
legende com amargo humor: lui, il est heureux.

Desisto da perseguição ao Chevrolet do engenheiro
petroquímico — abandono
a estrada para abastecer numa bomba
com o nome Platero, e eu
penso, ao encaminhar-me para a caixa
— a falta que nos faz
um marketing para a tristeza.