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01 maio 2025

Sonhar a Bíblia: "Descida da Cruz", de Domingos Sequeira

Excerto de uma comunicação proferida no dia 19 de Maio de 2025, no Museu Nacional Soares dos Reis, no âmbito da sessão de Um Objecto e Seus Discursos dedicada a «Descida da Cruz», de Domingos Sequeira (org. Museu do Porto)


Pormenor de Descida da Cruz (1827). Fotografia: MMP/MNSR/Rui Pinheiro.


«Eu nunca li a Bíblia, eu sempre a sonhei.» Esta declaração de Marc Chagall diz muito da minha relação com o quadro Descida da Cruz, de Domingos Sequeira. Por mais do que uma razão, como tentarei explicar. Antes de mais, assim me parece, um halo onírico, uma atmosfera sonhada caracteriza a obra de Sequeira. Vemos a cena bíblica como que por dentro de um sonho. Faz-me lembrar, sem que saiba explicar bem porquê, os poemas bíblicos, de sabor oriental e pendor opiáceo, de Else Lasker-Schüler, poetisa judia alemã da primeira metade do séc. XX. Também ela nunca leu a Bíblia: sonhou-a, alucinou-a. Leio-vos parte de uma das suas baladas hebraicas, intitulada “Reconciliação”, como amostra:

Há‑de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.1

Ocorre-me que, na passagem para o século XX, o teatro passou a suspeitar do enredo – de enredos elaborados, enxameados de personagens, eventos, reviravoltas, como sucede em Molière ou Shakespeare –, privilegiando a atmosfera: die Stimmung, para empregar um conceito filosófico frequentemente traduzido por “tonalidade afectiva”. Na Descida da Cruz, temos porventura as duas coisas: enredo e atmosfera. Quer dizer: Domingos Sequeira leu a Bíblia, e sonhou-a: estudou e alucinou. O seu quadro não é só uma análise da matéria sagrada, é também uma hipnoanálise.

Primeiro, há um enredo, uma trama complicada, com plot e subplots. Temos o descimento de Cristo da cruz, patrocinado por José de Arimateia, um homem rico que fora discípulo secreto de Jesus e que, segundo São Marcos, reclamou «ousadamente» junto de Pilatos o corpo do Messias morto: envolve-o agora num lençol muito fino para, por fim, o instalar num sepulcro lavrado na rocha. Outra das figuras representadas junto do cadáver crístico é Nicodemos, fariseu que traz para a cena quase cem libras de um composto de mirra e aloé. Este homem procurara Jesus de noite, furtivamente, para ouvir palavras escandalosas, isto é, palavras que fazem tropeçar, talvez cair: «Necessário te é nascer de novo.» Crucificado como um vulgar criminoso, é sepultado com um príncipe.

Este acontecimento detém, no agenciamento pictórico de Sequeira, um papel nodal, atando outros episódios que, na cronologia bíblica, não são coincidentes, ou síncronos: um inusitado fenómeno climático – as densas trevas do meio-dia, hora da crucificação –; os soldados romanos que lançam sortes sobre a túnica de Cristo; os sacerdotes, escribas e fariseus que, depois da hora da blasfémia, ponderam a estratégia securitária a adoptar nos dias seguintes; junto da cruz, o apóstolo João e Maria, mãe de Jesus, mutuamente confiados pelo Messias em estertor, capaz de palavras de vida ainda: «Mulher, eis aí o teu filho; [João,] eis aí tua mãe.»

Não sou capaz de determinar o quem é quem no quadro de Domingos Sequeira. Ali estão todos, afinal, do sinédrio à rua: homens e mulheres, judeus e romanos, sábios e néscios, príncipes e pedintes, justos e pecadores, vivos e mortos. O que talvez surpreenda no quadro seja uma espécie de silêncio ou rumor, quando esperaríamos uma vozearia. Alguns choram e lamentam; outros interrogam-se ou conspiram; outros ainda rezam em “línguas entalhadas como harpas”. Há talvez quem permaneça afásico – sem linguagem, sem fala – após o escândalo universal de Deus capturado pela morte. Mas à vista desarmada não há enfáticos gestos dramáticos, a eloquência lancinante da dor, mas antes uma qualquer dose de resignação, um estranho conformismo. No centro de tudo, um cadáver pasmosamente dotado de luz própria, como se diz que acontece com corpos estelares extintos, cujo brilho continua a alcançar-nos.

O quadro está repleto de pequenas histórias, algumas ignotas ou misteriosas, orbitando em torno dessa grande história, aquela que é simultaneamente um buraco negro e um luzeiro inextinguível, a história que rasgou a história do mundo em duas metades: antes de Cristo, depois de Cristo. Mas – pairando sobre tudo isto, subjazendo a tudo isto, atravessando tudo isto, como que radioactivamente – temos, assim me parece, uma tonalidade afectiva, uma atmosfera: onírica, quase narcótica, oriental. Os brasileiros usam a expressão pintou um clima, frequentemente para se referirem a situações de flirt. Domingos Sequeira pintou um clima. Else Lasker-Schüler escreveu num volume de prosa: “Sempre me esforcei por escavar, não em busca de ouro, mas em busca de Deus. Às vezes, dava com um pedaço de céu.”2


1 Else Lasker-Schüler, Baladas Hebraicas, tradução e apresentação João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 45.

2 Citado por João Barrento na introdução ao volume supracitado, intitulada “Saudades do Paraíso” (pp. 14-15).


21 abril 2019

«Onde passa a corrente de ar do inexplicável»


Deixo por momentos ao menos as cerimónias e os ritos da mais santa das semanas cristãs e tento extrair dos textos sagrados que na igreja se lêem, mas nem sempre se ouvem, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem sobre a vida de um grande homem ou de uma grande vítima. Em suma, o desenrolar de uma das mais belas histórias do mundo.
Um prólogo quase irónico: uma pobre gente chega à capital com o seu mestre bem-amado, aclamado pela mesma multidão que em breve o repudiará. Uma refeição de festa frugal: um traidor adivinhado entre os doze convivas; um ingénuo que proclama alto a sua fidelidade e será o primeiro a fraquejar; o mais jovem e mais amado apoiado com indolência ao ombro do mestre, talvez envolto naquele casulo dourado que sempre protege a juventude; o mestre, isolado, pela sabedoria e pela visão, no meio dos ignorantes e dos fracos que são o que ele encontrou de melhor para o seguirem e continuarem a sua obra.
Caída a noite, o mestre ainda mais só, no canto de um pomar que domina a cidade onde todos, excepto os seus inimigos, o esqueceram: as longas horas negras onde a presciência se convola em angústia; a vítima a orar para que a prova esperada lhe seja poupada, mas sabendo que o não pode ser e também que, «se tivesse de o refazer», faria o mesmo caminho; «a alma eterna» que observa o seu voto «apesar da solidão da noite». (Que Aragon e Rimbaud nos ajudem a compreender Marcos e João.) Enquanto ele sofre, os seus amigos dormem, incapazes de compreender a urgência do momento. «Não podeis vigiar um momento comigo?» Não: eles não podem; eles têm sono; e aquele que os chama não ignora que virá o tempo em que estes infelizes terão também de sofrer e vigiar.
A chegada do bando, para prender o acusado. O ardente defensor que se arrisca a piorar as coisas e se desdirá logo a seguir. Os dois aparelhos, o eclesiástico e o laico, incomodados, passando-se mutuamente o acusado; o eterno diálogo da fé e do cepticismo completando-se um ao outro: «Quem ama a verdade, escuta-me.» – «O que é a verdade?» O alto funcionário ultrapassado que gostaria bem de lavar as mãos deste caso e entrega à multidão a escolha do preso a libertar para a festa próxima, e o que ela escolhe é evidentemente a vedeta do crime, não o justo inocente. O condenado, insultado, flagelado, atormentado, por brutamontes que são provavelmente bons pais de família, bons vizinhos, boas pessoas, obrigado a arrastar a trave do seu martírio como, nos campos, por vezes os prisioneiros arrastavam uma pá para cavar a sepultura. O pequeno grupo de amigos que ficou com o supliciado, aceitando a humilhação e o perigo que decorrem da fidelidade. A algazarra dos guardas que disputam entre si a túnica esvaziada, como em tempo de guerra os camaradas de um morto lutam às vezes por um cinturão ou umas botas.
A ternura revelando-se nas recomendações aos seus, por parte de alguém até então demasiado absorvido pela sua missão para ter tempo de pensar neles: o moribundo dando como filho à sua mãe o melhor amigo. (Assim hoje, por toda a parte, as últimas cartas de condenados ou soldados partindo em missão de que não voltarão, cheias de conselhos sobre o casamento da irmã ou a pensão da velha mãe.) A troca de palavras com um condenado de delito comum em quem se encontrou um homem de coração; a longa agonia ao Sol, ao vento agreste, à vista da multidão que, pouco a pouco, se vai porque aquilo nunca mais acaba. A exclamação parece indicar que, para que tudo se cumpra, o desespero é um estado por que se tem de passar. «Porque me abandonaste?» E, horas depois, a esta pobre gente será dada como esmola uma sepultura para o seu corpo, e as sentinelas (há que desconfiar dos ajuntamentos) dormirão ao pé do muro como antes dormiram junto do amigo vivo e angustiado os seus humildes companheiros fatigados.
E que mais? As horas, os dias, as semanas que escorrem entre o luto e a confiança, entre fantasmas e Deus, e nessa atmosfera crepuscular onde nada é totalmente confirmado, verificado, concludente, mas onde passa a corrente de ar do inexplicável, como alguns desses pobres relatórios de sociedades para o avanço das ciências psíquicas, tanto mais perturbantes quanto são inconclusivos. A antiga meretriz vinda ao cemitério orar e chorar e julgando reconhecer aquele que perdeu no jardineiro. (Que melhor nome poderia dar-se àquele que faz crescer tantas sementes na alma humana?) E mais tarde, quando a emoção, como dizem os relatórios da polícia, acalmou, os dois fiéis pela rua fora, a quem se junta um simpático viajante que aceita sentar-se com eles à mesa da hospedaria, e desaparece no momento em que eles julgam reconhecê-Lo. Uma das mais belas histórias do mundo termina com os reflexos de uma Presença, bastante semelhantes a nuvens que o Sol já posto ainda ilumina.
«Eu sentir-me-ia mais perto de Jesus se ele tivesse sido fuzilado em vez de crucificado», dizia-me um dia um jovem oficial vindo da Guerra da Coreia. Foi para ele e para todos aqueles a quem é difícil encontrar o essencial por debaixo do acessório do passado que aceitei o risco de escrever o que precede. 

Marguerite Yourcenar – “Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo” (1977). In O Tempo, esse grande escultor. Trad. Helena Vaz da Silva. Lisboa, Difel, 2001, pp. 107-109.

A era do vazio

Em 2008, criei um blogue que não sobreviveu mais do que duas ou três semanas, talvez menos. Chamava-se Descobertas junto à costa, porque sempre fiz mais fé na descoberta do que na pesquisa: «Eu não procuro: encontro.» Fazia-se de achamentos que não decorrem do espírito aventuroso de quem se arrisca em mar alto, mas do ócio de quem passeia ao rés da água quando a maré vaza. Desse blogue nado-morto resgato um texto postado a 23 de Março de 2008, Domingo de Páscoa. Não estou certo, mas pode dizer respeito à última vez em que participei num serviço religioso feito ao romper do dia.

Perguntam-me por que razão todos os anos, no domingo de Páscoa, me levanto invulgarmente cedo – eu, que só vejo o nascer do sol inadvertidamente, quando me deixo ficar a pé para além da hora recomendável – para participar numa simplória celebração pascal no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. O que dizer, se o evento perdeu a atractividade de outros tempos, só arregimentando umas três ou quatro dezenas de baptistas tolhidos pelo sono e pelo frio (o termómetro do meu carro marcava 3 graus, e eu acredito, porque é alemão)? Antes de mais, esclareço que à minha alma é estranho tanto o impulso gregário como a vocação auto-sacrificial. Não há também um único amigo de adolescência que tenha o hábito de rever nessa ocasião festiva. A minha parca sociabilidade atinge, de resto, um novo mínimo histórico sempre que me levanto às seis da manhã. À excepção das ruas e estradas desertas, coisa que não deixa de suscitar uma estranha sensação de beleza que faz remotamente pensar nas imagens de Hoper, nada há de particularmente notável no trajecto até ao Monte da Virgem. Nem sequer as antenas da RTP-Porto suscitam uma particular comoção no meu espírito. O rosto estremunhado dos meus correligionários baptistas em nada reflecte o assombro do acontecimento celebrado. Sendo certo que haverá muitas outras formas de evocar a ressurreição de Cristo, o que lá vou eu ver e fazer? Admito que a pergunta tem a sua pertinência, mas consola-me o facto de que tudo aquilo que os discípulos viram nessa ditosa madrugada de domingo foi apenas um túmulo vazio.