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01 maio 2025

Jonas Mekas, o olhar que não mudou

Excerto de um texto publicado no livro Outras Revoluções, Cinema, org. Edmundo Cordeiro (Museu e Bibliotecas do Porto, 2025). O texto resultou da apresentação de Walden, de Jonas Mekas, no dia 18 de Julho de 2024, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Porto.

Walden

Paradise Not Yet Lost

This Side of Paradise

As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty

Na introdução a The Defendant (1901) — obra em que faz a apologia dos planetas e do nonsense, passando pela heráldica, as pastoras chinesas, as coisas feias e as informações úteis –, G.K. Chesterton escarnece tanto da especulação teológica acerca da localização exacta do Paraíso como da nossa secularizada tendência para considerar o mundo «tão perdido como o Éden e tão afundado quanto a Atlântida». Para Chesterton, a grande queda da história humana, tipificada pela queda de Adão, decorre da irresistível propensão para subestimar o meio ambiente em que nos encontramos e movemos. «Muito provavelmente ainda estamos no Paraíso. Talvez só o nosso olhar tenha mudado.»

O que as três horas de Walden nos oferecem é um olhar que não mudou. Jonas Mekas ainda está no Paraíso, preservando a alegria e o espanto diante das coisas, diante do facto pasmoso de haver mundo, em vez de nada. Apetrechado com a sua Bolex, ele é o anjo que filma o princípio do mundo, um mundo em estado nascente, infantil, pletórico. Walden não nos leva para os bosques de Thoreau, mas está repleto de crianças e árvores, celebrando as cenas de rua e a passagem das estações, filmando amigos em torno de uma mesa, números de circo, a festa de um casamento. Walden é feito de clarões do Paraíso, por vezes somos encandeados pela beleza.

Que o realizador américo-lituano seja um deslocado, como tantos outros que os tumultos do mundo continuam a gerar, não ameaça esta hipótese. Mekas viu-se forçado a abandonar a terra natal, mas não foi expulso do Paraíso; ainda que, com o irmão Adolfas, tenha vivido em campos de refugiados antes de, em 1949, chegar aos EUA, o seu olhar não foi obnubilado, permanecendo intacto e disponível para a primeira vez das coisas. O olhar de Jonas Mekas não envelheceu nem envileceu. Daí que a ideia de Paraíso, há muito varrida do discurso teológico, seja tão prontamente associada ao cinema de Mekas: Fragments of Paradise (2022) é o título do documentário que K.D. Davison dedica à vida e obra do realizador, e o próprio já baptizara um filme inteiramente dedicado aos acontecimentos de 1977, organizados em torno da figura de Oona, a filha de três anos, com o título Paradise Not Yet Lost. Vinte anos depois, até o delicado close-up à família Kennedy, rodado pouco tempo após o assassínio de J.F.K., receberá por título This Side of Paradise. Um outro título de Mekas serve-nos de descrição à experiência de atravessar os planos e imagens das seis bobines de Walden como quem entra numa floresta sem medo de nela se perder: As I Was Moving Ahead Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty (2000).

Talvez num aspecto Walden se distancie da noção de Paraíso. O filme de Jonas Mekas é um diário e está cheio de época, enquanto o Paraíso desconhece o tempo. Na teologia bíblica, o Paraíso é um lugar sem tempo, anterior ao tempo, está do lado da eternidade. A personagem do Tempo dos mistérios medievais só está autorizada a entrar em cena após a Queda, após a expulsão do Paraíso, e a Morte é figurada como a «triste paridura» de Adão e Eva, irremediavelmente caídos no mundo (Gil Vicente, Breve Sumário da História de Deus, 1527). Há quem se acerque de Walden com um interesse histórico preciso, pois ele oferece um luxuriante catálogo das figuras da cultura underground na Nova Iorque da década de sessenta: Allen Ginsberg, Stan Brakhage, Gregory Markopoulos, Andy Wharol, os Velvet Underground, John Lennon e Yoko Ono, entre tantos e tantos outros, mas também aparições inesperadas, como a de Carl Dreyer, de visita aos EUA. Mas, embora Walden seja precioso para a sociologia da cultura, não nos devemos enganar: não há hierarquia entre o casal Lennon/Ono e a barata que se esforça por atravessar a rua. A mesma viva atenção, a mesma alegria anima estes planos. O filme de Mekas excede a função documental, possuindo uma vocação poética e comunicando uma contagiante energia vital: «Não estou a documentar a realidade, estou a celebrar a realidade», dizia Jonas Mekas, que sempre se recusou a falar das imagens dos seus filmes como memórias do que viveu e foi perdendo com o tempo. The past cannnot be presented, escreveu Thoreau. O realizador ambicionava emancipar do chronos todas essas imagens para as celebrar no presente em que são vistas. O deus de Mekas é o kairós — o tempo oportuno, o instante favorável —, que a teologia cristã associa ao “tempo de Deus”. É como propõe C.S. Lewis em The Screwtape Letters (1942): «O presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade.»

Sonhar a Bíblia: "Descida da Cruz", de Domingos Sequeira

Excerto de uma comunicação proferida no dia 19 de Maio de 2025, no Museu Nacional Soares dos Reis, no âmbito da sessão de Um Objecto e Seus Discursos dedicada a «Descida da Cruz», de Domingos Sequeira (org. Museu do Porto)


Pormenor de Descida da Cruz (1827). Fotografia: MMP/MNSR/Rui Pinheiro.


«Eu nunca li a Bíblia, eu sempre a sonhei.» Esta declaração de Marc Chagall diz muito da minha relação com o quadro Descida da Cruz, de Domingos Sequeira. Por mais do que uma razão, como tentarei explicar. Antes de mais, assim me parece, um halo onírico, uma atmosfera sonhada caracteriza a obra de Sequeira. Vemos a cena bíblica como que por dentro de um sonho. Faz-me lembrar, sem que saiba explicar bem porquê, os poemas bíblicos, de sabor oriental e pendor opiáceo, de Else Lasker-Schüler, poetisa judia alemã da primeira metade do séc. XX. Também ela nunca leu a Bíblia: sonhou-a, alucinou-a. Leio-vos parte de uma das suas baladas hebraicas, intitulada “Reconciliação”, como amostra:

Há‑de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.1

Ocorre-me que, na passagem para o século XX, o teatro passou a suspeitar do enredo – de enredos elaborados, enxameados de personagens, eventos, reviravoltas, como sucede em Molière ou Shakespeare –, privilegiando a atmosfera: die Stimmung, para empregar um conceito filosófico frequentemente traduzido por “tonalidade afectiva”. Na Descida da Cruz, temos porventura as duas coisas: enredo e atmosfera. Quer dizer: Domingos Sequeira leu a Bíblia, e sonhou-a: estudou e alucinou. O seu quadro não é só uma análise da matéria sagrada, é também uma hipnoanálise.

Primeiro, há um enredo, uma trama complicada, com plot e subplots. Temos o descimento de Cristo da cruz, patrocinado por José de Arimateia, um homem rico que fora discípulo secreto de Jesus e que, segundo São Marcos, reclamou «ousadamente» junto de Pilatos o corpo do Messias morto: envolve-o agora num lençol muito fino para, por fim, o instalar num sepulcro lavrado na rocha. Outra das figuras representadas junto do cadáver crístico é Nicodemos, fariseu que traz para a cena quase cem libras de um composto de mirra e aloé. Este homem procurara Jesus de noite, furtivamente, para ouvir palavras escandalosas, isto é, palavras que fazem tropeçar, talvez cair: «Necessário te é nascer de novo.» Crucificado como um vulgar criminoso, é sepultado com um príncipe.

Este acontecimento detém, no agenciamento pictórico de Sequeira, um papel nodal, atando outros episódios que, na cronologia bíblica, não são coincidentes, ou síncronos: um inusitado fenómeno climático – as densas trevas do meio-dia, hora da crucificação –; os soldados romanos que lançam sortes sobre a túnica de Cristo; os sacerdotes, escribas e fariseus que, depois da hora da blasfémia, ponderam a estratégia securitária a adoptar nos dias seguintes; junto da cruz, o apóstolo João e Maria, mãe de Jesus, mutuamente confiados pelo Messias em estertor, capaz de palavras de vida ainda: «Mulher, eis aí o teu filho; [João,] eis aí tua mãe.»

Não sou capaz de determinar o quem é quem no quadro de Domingos Sequeira. Ali estão todos, afinal, do sinédrio à rua: homens e mulheres, judeus e romanos, sábios e néscios, príncipes e pedintes, justos e pecadores, vivos e mortos. O que talvez surpreenda no quadro seja uma espécie de silêncio ou rumor, quando esperaríamos uma vozearia. Alguns choram e lamentam; outros interrogam-se ou conspiram; outros ainda rezam em “línguas entalhadas como harpas”. Há talvez quem permaneça afásico – sem linguagem, sem fala – após o escândalo universal de Deus capturado pela morte. Mas à vista desarmada não há enfáticos gestos dramáticos, a eloquência lancinante da dor, mas antes uma qualquer dose de resignação, um estranho conformismo. No centro de tudo, um cadáver pasmosamente dotado de luz própria, como se diz que acontece com corpos estelares extintos, cujo brilho continua a alcançar-nos.

O quadro está repleto de pequenas histórias, algumas ignotas ou misteriosas, orbitando em torno dessa grande história, aquela que é simultaneamente um buraco negro e um luzeiro inextinguível, a história que rasgou a história do mundo em duas metades: antes de Cristo, depois de Cristo. Mas – pairando sobre tudo isto, subjazendo a tudo isto, atravessando tudo isto, como que radioactivamente – temos, assim me parece, uma tonalidade afectiva, uma atmosfera: onírica, quase narcótica, oriental. Os brasileiros usam a expressão pintou um clima, frequentemente para se referirem a situações de flirt. Domingos Sequeira pintou um clima. Else Lasker-Schüler escreveu num volume de prosa: “Sempre me esforcei por escavar, não em busca de ouro, mas em busca de Deus. Às vezes, dava com um pedaço de céu.”2


1 Else Lasker-Schüler, Baladas Hebraicas, tradução e apresentação João Barrento, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 45.

2 Citado por João Barrento na introdução ao volume supracitado, intitulada “Saudades do Paraíso” (pp. 14-15).


04 janeiro 2021

«No princípio era a Relação»

Múltiplas traduções têm sido propostas para esta afirmação de São João: «No princípio era a Palavra.» O termo original grego – logos – possui uma amplitude semântica quase incomensurável: significa palavra, mas também razão, inteligência, fundamento, princípio. No Fausto, Goethe traduziu o verso como «No princípio era a acção». A palavra possui um carácter performativo: acontece e faz acontecer. A palavra traz coisas da não-existência à existência, ou produz um efeito de desvelamento. Aprecio também a paráfrase irrisória que Karl Kraus propôs: «No princípio era a imprensa – e depois apareceu o mundo.» O mundo afigura-se um subproduto, uma emanação, não apenas da imprensa, mas de toda a imensa rede de comunicação que cobre hoje o que chamamos real. Mas a tradução que se me afigura justa e inspirada é a de Martin Buber, filósofo de origem judaica: «No princípio era a Relação.» Para que serve a linguagem, para que servem as palavras? Servem para informar, para transmitir uma ideia, uma ordem? Servem para organizar o meu próprio pensamento? Sabemos que o homem é um bicho que se organiza linguisticamente. As palavras servem também para retermos um olhar, a atenção do outro. Talvez as palavras sirvam apenas para que os outros fiquem connosco um bocadinho mais. No princípio é a Palavra que se quer companhia, a Palavra que se quer relação. Por alguma razão, o Anjo diz à Virgem que o menino se chamará Emanuel (Mt. 1.23), que significa: Deus connosco.

02 janeiro 2021

Primeira palavra

Queremos ter a última palavra. É assim nas nossas discussões em casa, nas divergências que nos opõem no trabalho, nos processos de decisão. Ambicionamos enunciar a palavra derradeira, a palavra definitiva, a palavra que coloca um ponto final. O célebre prólogo de São João diz-nos que Deus tem a primeira palavra: uma palavra criativa, criadora. Jesus é a palavra que abre; a palavra que, em vez de terminar uma conversação, a inicia; a palavra que, longe de encerrar o assunto, o inaugura. Esta palavra é um chamamento: convida-nos a ingressar numa história ainda por escrever. É por isso que João Baptista diz de Jesus: “O que vem depois de mim é antes de mim.” Na tradução-paráfrase de Eugene Peterson, o Baptista assevera: He has always been ahead of me, he has always had the first word.

21 abril 2019

«Onde passa a corrente de ar do inexplicável»


Deixo por momentos ao menos as cerimónias e os ritos da mais santa das semanas cristãs e tento extrair dos textos sagrados que na igreja se lêem, mas nem sempre se ouvem, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem sobre a vida de um grande homem ou de uma grande vítima. Em suma, o desenrolar de uma das mais belas histórias do mundo.
Um prólogo quase irónico: uma pobre gente chega à capital com o seu mestre bem-amado, aclamado pela mesma multidão que em breve o repudiará. Uma refeição de festa frugal: um traidor adivinhado entre os doze convivas; um ingénuo que proclama alto a sua fidelidade e será o primeiro a fraquejar; o mais jovem e mais amado apoiado com indolência ao ombro do mestre, talvez envolto naquele casulo dourado que sempre protege a juventude; o mestre, isolado, pela sabedoria e pela visão, no meio dos ignorantes e dos fracos que são o que ele encontrou de melhor para o seguirem e continuarem a sua obra.
Caída a noite, o mestre ainda mais só, no canto de um pomar que domina a cidade onde todos, excepto os seus inimigos, o esqueceram: as longas horas negras onde a presciência se convola em angústia; a vítima a orar para que a prova esperada lhe seja poupada, mas sabendo que o não pode ser e também que, «se tivesse de o refazer», faria o mesmo caminho; «a alma eterna» que observa o seu voto «apesar da solidão da noite». (Que Aragon e Rimbaud nos ajudem a compreender Marcos e João.) Enquanto ele sofre, os seus amigos dormem, incapazes de compreender a urgência do momento. «Não podeis vigiar um momento comigo?» Não: eles não podem; eles têm sono; e aquele que os chama não ignora que virá o tempo em que estes infelizes terão também de sofrer e vigiar.
A chegada do bando, para prender o acusado. O ardente defensor que se arrisca a piorar as coisas e se desdirá logo a seguir. Os dois aparelhos, o eclesiástico e o laico, incomodados, passando-se mutuamente o acusado; o eterno diálogo da fé e do cepticismo completando-se um ao outro: «Quem ama a verdade, escuta-me.» – «O que é a verdade?» O alto funcionário ultrapassado que gostaria bem de lavar as mãos deste caso e entrega à multidão a escolha do preso a libertar para a festa próxima, e o que ela escolhe é evidentemente a vedeta do crime, não o justo inocente. O condenado, insultado, flagelado, atormentado, por brutamontes que são provavelmente bons pais de família, bons vizinhos, boas pessoas, obrigado a arrastar a trave do seu martírio como, nos campos, por vezes os prisioneiros arrastavam uma pá para cavar a sepultura. O pequeno grupo de amigos que ficou com o supliciado, aceitando a humilhação e o perigo que decorrem da fidelidade. A algazarra dos guardas que disputam entre si a túnica esvaziada, como em tempo de guerra os camaradas de um morto lutam às vezes por um cinturão ou umas botas.
A ternura revelando-se nas recomendações aos seus, por parte de alguém até então demasiado absorvido pela sua missão para ter tempo de pensar neles: o moribundo dando como filho à sua mãe o melhor amigo. (Assim hoje, por toda a parte, as últimas cartas de condenados ou soldados partindo em missão de que não voltarão, cheias de conselhos sobre o casamento da irmã ou a pensão da velha mãe.) A troca de palavras com um condenado de delito comum em quem se encontrou um homem de coração; a longa agonia ao Sol, ao vento agreste, à vista da multidão que, pouco a pouco, se vai porque aquilo nunca mais acaba. A exclamação parece indicar que, para que tudo se cumpra, o desespero é um estado por que se tem de passar. «Porque me abandonaste?» E, horas depois, a esta pobre gente será dada como esmola uma sepultura para o seu corpo, e as sentinelas (há que desconfiar dos ajuntamentos) dormirão ao pé do muro como antes dormiram junto do amigo vivo e angustiado os seus humildes companheiros fatigados.
E que mais? As horas, os dias, as semanas que escorrem entre o luto e a confiança, entre fantasmas e Deus, e nessa atmosfera crepuscular onde nada é totalmente confirmado, verificado, concludente, mas onde passa a corrente de ar do inexplicável, como alguns desses pobres relatórios de sociedades para o avanço das ciências psíquicas, tanto mais perturbantes quanto são inconclusivos. A antiga meretriz vinda ao cemitério orar e chorar e julgando reconhecer aquele que perdeu no jardineiro. (Que melhor nome poderia dar-se àquele que faz crescer tantas sementes na alma humana?) E mais tarde, quando a emoção, como dizem os relatórios da polícia, acalmou, os dois fiéis pela rua fora, a quem se junta um simpático viajante que aceita sentar-se com eles à mesa da hospedaria, e desaparece no momento em que eles julgam reconhecê-Lo. Uma das mais belas histórias do mundo termina com os reflexos de uma Presença, bastante semelhantes a nuvens que o Sol já posto ainda ilumina.
«Eu sentir-me-ia mais perto de Jesus se ele tivesse sido fuzilado em vez de crucificado», dizia-me um dia um jovem oficial vindo da Guerra da Coreia. Foi para ele e para todos aqueles a quem é difícil encontrar o essencial por debaixo do acessório do passado que aceitei o risco de escrever o que precede. 

Marguerite Yourcenar – “Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo” (1977). In O Tempo, esse grande escultor. Trad. Helena Vaz da Silva. Lisboa, Difel, 2001, pp. 107-109.

31 dezembro 2018

Ler um poema é...

Foi bom começar o ano aqui. Foi bom terminá-lo aqui também. Agradeço à Maria Sequeira Mendes e à Joana Meirim a insistência.

03 dezembro 2017

«Que farei eu para herdar a vida eterna?»

fotogramas do plano-sequência final de Some Came Running, de Vincente Minnelli (1958)

Revi ontem à noite Some Came Running, que deu em português Deus Sabe Quanto Amei. Vi o filme pela primeira vez no Teatro do Campo Alegre, no âmbito de um ciclo de homenagem a João Bénard da Costa. Foi no dia 3 de Junho de 2009 — «e nunca poderei ter outro dia assim». O melodrama de Minnelli produziu em mim uma comoção particular, e lembro-me de que na manhã seguinte me apressei a encomendar o DVD. Estranhamente, durante este tempo, não voltei a ver o filme. Não que tivesse ficado esquecido, soterrado por outros filmes que se impusessem como prioritários, ou que se visse sistematicamente protelado por afazeres, leituras, compromissos. Simplesmente, não me atrevi a revê-lo. Temeria que o filme não me solicitasse do mesmo modo que solicitara da primeira vez? Ou temeria o contrário: that inconsolable longing (C.S. Lewis) que tomou conta de mim em Junho de 2009? Não sei dizer. Como também não sei dizer ao certo por que razão ontem à noite me decidi finalmente, oito anos depois, a desselar o filme e a inseri-lo no leitor de DVD. Feliz ou infelizmente — também não sei dizer —, o telefone interrompeu por duas vezes a sessão de home cinema, perturbando o projecto de me abandonar à pieguice e liquefazer por completo. (Para os místicos medievais, as lágrimas eram um dom e, dos séculos VIII e IX em diante, proliferaram as orações pro petitione lacrimarum. Que mutação genética se operou entretanto na nossa sensibilidade para que as lágrimas sejam tão-somente uma manifestação de pieguice ou sentimentalismo?) Ainda assim, foi-me dado comover-me de novo com aquela criatura que Bénard da Costa classificou como «a mais bonita personagem que o cinema alguma vez inventou»: a Ginny de Shirley MacLaine, mulher perdida e achada que corre para o amor e para a morte. Essa rapariga, manifestamente incompetente para discutir obras e correntes literárias, «não sabe nada e percebe tudo», como também diz Bénard, enquanto a professora de literatura por quem o Dave Hirsch de Sinatra se apaixona «sabe tudo e não percebe nada». (Ao rever o filme, senti-me um pouco envergonhado por dar aulas de literatura, receando debitar patacoadas tão possidónias como aquelas que Miss French — que certeiro apelido! — profere, tão segura de si, sobre De Quincey ou Baudelaire.) Não sei se percebo o título original — Some Came Running —, que remete para um passo do Evangelho de Marcos (there came one running, na King James Version), quando alguém chega a correr e se ajoelha aos pés de Jesus de Nazaré, perguntando-lhe: «Bom mestre, que farei eu para herdar a vida eterna?» Na narrativa bíblica, aquele que chegara tão ligeiro afasta-se depois pesaroso, arrastando os pés, ao escutar a resposta de Jesus. Quem corre neste filme? E quem se retira pesada e pesarosamente? Quem herda a vida eterna, e quem a declina? Que coisa no-la pode garantir? E que coisa nos pode dela privar? Um dos momentos mais comoventes deste filme de Minnelli diz respeito ao gesto final de Bama, o incorrigível gambler e santo bebedor interpretado por Dean Martin, que não tira o chapéu ao longo de todo o filme — recusa-se a fazê-lo mesmo numa cama de hospital, depois de ter sido esfaqueado — para que possa tirá-lo na única ocasião em que verdadeiramente se justifica fazê-lo: o funeral de Ginny, que correra para interceptar a bala destinada ao homem que amava sem que fosse capaz de compreendê-lo. (Ninguém tem maior amor do que este…, como também dizem os evangelhos.) Por detrás de Dean Martin, um anjo de pedra e um rio, infalíveis símbolos de perenidade e de transitoriedade: as coisas eternas e as coisas breves, as coisas que permanecem para sempre e as coisas que passam para nunca mais voltar.

26 outubro 2017

O demónio, esse citador

Satan addressing his potentates (ca. 1816-1818), de William Blake

Ouvi na televisão que um juiz desembargador do Porto citou a Bíblia para justificar as agressões de um marido traído (e — terei ouvido bem? — de um ex-amante) a uma «mulher adúltera». Isto nada prova contra a Escritura, e não chega sequer a agravar a sua fama. (O nosso Nobel da Literatura estimara-a já como um «manual de maus costumes».) Não esqueçamos que o próprio diabo cita o texto sagrado. É o que sucede no episódio das tentações de Jesus no deserto, quando o demónio cita escrupulosamente o Salmo 91. É, aliás, este episódio dos Evangelhos que António, esse cristão tão caridoso, tem em mente ao advertir Bassânio contra o judeu Shylock, que habilidosamente lançara mão de uma narrativa veterotestamentária sobre Jacob e o sogro deste, Labão:

     O diabo cita a Escritura p’ra seu propósito.
     A alma vil gerando testemunho santo
     É como um vilão pondo no rosto um sorriso,
     Maçã de bom aspecto podre no seu âmago.
     William Shakespeare — O Mercador de Veneza (trad. Daniel Jonas)

O demónio é um citador. Tem sempre na ponta da língua um versículo bíblico adequado à circunstância. Nos acampamentos de Verão evangélicos, arrebataria o primeiro prémio nessa modalidade olímpica ainda não reconhecida que dá pelo nome de destreza bíblica. Vladimir Soloviev — poeta e filósofo russo da segunda metade do séc. XIX que se tornou especialmente próximo de Dostoievski — vai mais longe ainda: numa novela, figura o Anticristo a ser distinguido com o doutoramento honoris causa em Teologia Bíblica pela Universidade de Tübingen. Evidentemente, demonizar o juiz desembargador seria não apenas excessivo como inteiramente inadequado, pois outorgaria à obtusidade e ao cretinismo um glamour que só ao Satanás de Milton e Blake é devido. Em todo o caso, sempre que me dizem que alguém citou a Bíblia, estremeço. Eu próprio cito amiúde a Escritura, o que talvez devesse pôr em guarda aqueles que comigo ainda admitem conviver.

24 agosto 2017

Visitações

Os factos reportam-se aos primeiros anos do século XXI. Anos de chumbo: a Baixa esvaía-se de gente por volta das oito, o comércio encenava nas montras a sua ruína e a sua melancolia, os turistas não eram ocidentais — eram acidentais, gente que vinha ao engano. A Praça da Batalha não passava de um ícone lumpemproletário: a praça de A hora em que não sabíamos nada uns dos outros, mas frequentada apenas por criaturas de procedência duvidosa: escroques, delinquentes, carteiristas, velhas putas, escrevinhadores pardacentos, fantasmas constipados. A Rua Alexandre Herculano era a mais poluída artéria do coração da Baixa, albergando uma garagem lúgubre da Rodoviária Nacional. Eu ocupava um escritório ao lado, no último piso de um prédio soturno, viveiro mais que certo de negócios ominosos, de actividades dúbias no que toca a higiene e fiscalidade. Nesses anos — era isto que eu queria contar —, fui vítima de algumas tentativas de assalto. Digo ‘vítima’, mas chutei com o pé que estava mais à mão, como diz o poeta. Na verdade, não passaram de tentativas goradas de assalto. Vou isentar-me de relatar por que infames expedientes me furtei sempre ao furto: levar a melhor sobre um patife nem sempre implica audácia e valentia, às vezes pede o contrário. (Como sucede frequentemente na procura de emprego, o excesso de qualificações pode revelar-se contraproducente.) Embora estes assaltos tenham sido conduzidos por larápios de feições e compleições diversas, dois deles abordaram-me da mesmíssima maneira: o ataque — na acepção musical da palavra — foi igual. Teriam a mesma escola, a mesma proveniência, a mesma missão? Os meliantes declararam, à queima-roupa: «Eu conheço-te.» Uma frase banal, que adquiriu aos meus ouvidos um efeito estarrecedor. Ainda hoje estremeço se alguém me diz isto. «Eu conheço-te.» Um outro disparou esta tão pouco tranquilizante declaração: «Não tenhas medo.» Não combati com qualquer deles e não lhes roguei a bênção no lusco-fusco da madrugada, mas foram as experiências mais próximas que tive do que imagino ser um encontro com um anjo.

22 agosto 2017

«Por que razão mo perguntas? O meu nome é misterioso.»

Esclarecimento (quem sabe se útil) sobre a entrada «Meu zeloso guardador»

Não choveram protestos, mas morrinhou uma reclamação amiga pela ligeireza com que taxei a prática católica da oração ao anjo-da-guarda como uma manifestação de «obscurantismo bíblico». De facto, os católicos encontram fundamento para esta prática nas Escrituras, especialmente no livro de Tobite, um texto que desconheço porque não faz parte do cânone hebraico e porque, com o desembaraço próprio de bárbaros e iconoclastas, os protestantes o reputaram como ‘apócrifo’. Confesso-me bastante enferrujado nos bilros para discutir um tema que, tratado com a devida propriedade, nos conduziria a minuciosos rendilhamentos e subtilezas, como aquela distinção operada pela teologia católica entre latria e dulia (adoração e veneração). De resto, com que proveito o faria? Não poderia competir com os dicionários de religião disponíveis, por exemplo, no Internet Archive (consultam-se sempre com interesse os de James Hastings, que já contam mais de cem anos). Apraz-me apenas registar que Antigo e Novo Testamentos se furtam à doutrina estável sobre os anjos: da sistematização e das hierarquias se ocuparam as correntes místicas e o gnosticismo de várias épocas. Encontramos, é certo, um esboço de hierarquia na Carta aos Colossenses (o célebre «Tronos, Dominações, Principados e Potestades»), mas é precisamente nesta epístola que — consciente do perigoso magnetismo irradiado por esses seres alados — o apóstolo Paulo adverte contra o culto dos anjos. O que conta é que, apesar da fascinação (e da enjoativa imagística kitsch) que geram, os anjos são doutrinariamente flutuantes. Também no plano teológico são criaturas com asas, que levantam voo e se evolam sempre que os tentamos fixar, poupando-se a estorvos e maçadas. Quando Manoé, pai de Sansão, pergunta ao anjo qual o seu nome, este responde: «Por que razão mo perguntas? O meu nome é misterioso.» (Juízes 13,18)

18 agosto 2017

Meu zeloso guardador

Alguém me contou que todas as noites, ao adormecer, dirigia ao seu anjo-da-guarda uma prece que a mãe lhe ensinara quando era criança. Com a minha típica arrogância calvinista, atribuí esta prática ao obscurantismo bíblico em que tantos católicos se autocomprazem, recreando-se num sincretismo morno: consulta-se o horóscopo à hora do almoço, compra-se uma velinha em forma de buda (com o pavio no cocuruto) ao final da tarde e, à noitinha, profere-se uma reza que também a prole de Allan Kardec perfilha. Na ocasião, não censurei a minha amiga, mas o meu sorriso condescendente terá dito a meia palavra que lhe bastava. Contudo insatisfeito, voltei ao assunto dias depois — e pedi-lhe que me recitasse a oração. Para minha surpresa, fê-lo naquele instante. Era, como eu imaginava, uma oração singela, uma versão provavelmente truncada de uma antiga oração ao anjo-custódio. Todavia, a prontidão e a candura com que aquela mulher partilhou comigo a sua oração desarmaram-me. Senti-me envergonhado — em parte por rever em mim a fisionomia daquelas personagens de Flannery O’Connor que desdenham de gente que não tem uma «religião avançada», uma religião purgada de baboseiras, desimpedida de inútil bricabraque: em suma, uma «religião reformada». Mas a funda razão da minha vergonha prendia-se com outra coisa: não ser capaz de me lembrar da última ocasião em que partilhei uma oração com alguém, sem precisar de invocar uma justificação teológica ou literária, como por vezes sucede em aulas ou em ‘ensaios de mesa’ com os actores. Continuo a pensar que, no plano da teologia bíblica, a proliferação de intercessores — Virgem, santos, anjos e toda a corte celestial — redunda na dissolução do papel de Jesus Cristo como único mediador entre Deus e os homens (cf. I Timóteo 2:5 e João 14:6). Ainda assim, estranhamente, espero que esta noite a minha amiga não se esqueça de fazer a sua oração.

Agora que volto a pensar nestas coisas, lembro-me de Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano que foi enforcado aos 39 anos no campo de Flossenbürg por ter participado na conspiração que culminou no atentado falhado contra Hitler. A pedido dos seus companheiros na cadeia militar de Tegel, escreveu «orações para presos». Era um dos maiores teólogos do século, e ali estava ele, compondo breves preces matutinas e vespertinas — e «orações para momentos de especial aflição». É um pouco como pedir a um génio da física nuclear que ensine os rudimentos da aritmética a crianças do primeiro ciclo. E, no entanto, o amigo e confidente Eberhard Bethge concluiu que toda a teologia e toda a espiritualidade de Bonhoeffer foram decantadas nessas orações muito simples — escritas para serem partilhadas.

04 agosto 2017

Ainda a propósito do primogénito da Parábola do Filho Pródigo

Em toda a sua vida, nunca se perdeu. Não há qualquer mérito nisso: nunca foi a um sítio onde pudesse perder-se.

22 julho 2017

A armadura de Saul

As nossas explicações assentam nas parábolas como a armadura de Saul em David, entorpecendo um corpo ágil, livre.

Caga-tacos

As parábolas dos Evangelhos estão para o caga-tacos David como as nossas certezas para o gigante fanfarrão Golias.

21 julho 2017

A propósito do primogénito da Parábola do Filho Pródigo

Se tens de te perder, perde-te numa terra distante. A pior forma de estar perdido é estar perdido em casa.

Fugir, regressar (5)

Sempre que falarmos em ‘fugir’ e ‘regressar’, iremos dar — como numa rua de sentido único — à Parábola do Filho Pródigo. Assim que esta narrativa do Evangelho de Lucas é mencionada num púlpito, vêem-se logo faces compungidas à nossa volta. E, no entanto, é uma parábola escandalosa, como escandalosas são tantas das parábolas de Jesus de Nazaré. Não pretendo ser ‘polémico’. Emprego o termo escândalo na exacta acepção etimológica que um artista escandaloso como Romeo Castellucci tanto invoca: uma pedra de tropeço, uma pequenina coisa que está no meio do caminho e na qual a nossa sensibilidade ou as nossas certezas tropeçam, vacilam e — se tivermos sorte — desabam. A Parábola do Filho Pródigo é escandalosa, antes de mais, porque a Graça constitui, em si mesma, um escândalo — nada a fazer. Por vezes, é necessário raspar uma camada ressequida de piedoso kitsch para percebermos como estes textos mantêm intacta toda a sua força, toda a sua potência para escandalizar. Não é tarefa árdua. Basta, por exemplo, lembrar que tão perdulário e dissipador quanto o filho dissoluto é o pai da parábola, que não hesita em cumular imediatamente de dádivas e mimos o estouvado que regressa, o que qualquer psicólogo de tevê condescendentemente reprovaria. Perante tão insensata liberalidade, revemos no pai o filho mais novo: quem sai aos seus não degenera. Em rigor, a narrativa também poderia ter ficado conhecida como Parábola do Pai Pródigo. Imagino que, hoje, o filho mais velho conseguiria persuadir os nossos tribunais a darem o progenitor como juridicamente incapaz. De resto, se formos capazes de alguma honestidade connosco próprios, reconheceremos no filho mais velho aquelas coisas que a nós mesmos atribuímos: razoabilidade, bom senso, sentido de justiça — enfim, o putedo do demónio, como sabiam os santos. E, no entanto, a parábola comove na medida em que escandaliza. Que o filho que «partiu» do pai (v. 13) acabe por «chegar-se» a um porqueiro (v. 15) e que, tendo devorado tudo e sugado o tutano da ‘vida’, acabe numa terra onde grassa uma «grande fome» (v. 14), são apenas duas das comoventes ironias da parábola. Menciono dois outros pormenores que desde há muito me intrigam. O primeiro decorre do facto de o texto de Lucas mencionar que, estando ainda numa terra distante, o filho mais novo «torna em si» (v. 17) e delibera: «Irei ter com meu pai…» (v. 18). Trata-se de um movimento simultâneo: tornar e ir, voltar e partir. Pensaríamos que regressar a casa representaria uma capitulação, o que é, em grande medida, verdade. Mas a parábola sugere que voltar a si e retomar a liberdade própria não exclui, antes reclama ir até ao pai. (Faz-nos pensar nos santos, que, aos nossos olhos, renunciam a si mesmos, mas na verdade desenvolvem uma nova, peculiar e surpreendente personalidade. Se não estou em erro, era C.S. Lewis quem dizia que os pecadores são fastidiosamente parecidos uns com os outros quando comparados com os santos, que contrastam fortemente entre si.) O segundo passo diz respeito ao argumento que o pai emprega na conversa final com o primogénito self-righteous, que se insurge contra a obscena prodigalidade da recepção ao caçula: «Mas era justo alegrarmo-nos…» (v. 32), diz o pai. É o termo justo (cito a tradução de João Ferreira de Almeida) que aqui me comove, como se o pai puxasse o tapete ao filho mais velho, ou o deixasse sem chão — o chão da justiça. Habitualmente, contrapomos justiça e graça, como se, a todo o momento, Deus tivesse de optar por uma das virtudes. Que a graça seja justa e a justiça seja graciosa é qualquer coisa que perturba os cristalizados dualismos com que operamos e nos movemos. No final, percebemos que é este o filho perdido, um homem que perdeu inclusive a noção de estar perdido. É um fugitivo na sua própria casa.