Acho que a primeira vez que ouvi Time de David Bowie foi em 1998, num espectáculo de Ricardo Pais, no Teatro São João. Talvez não tenha sido a primeira, mas foi aí que a canção se me tornou memorável. Ricardo Pais garante que é a mais bela canção sobre a condição teatral. Canta Bowie: «Olho para o relógio, são 9h25 e penso: ‘Meu Deus, ainda estou vivo!’ Devíamos estar agora a entrar em cena.» Hoje é Dia Mundial do Teatro. Ainda estamos vivos — e devíamos estar a entrar em cena... O Teatro estabelece uma relação peculiar com o tempo: é efémero, fugaz e, no entanto, como que suspende o tempo, iludindo a morte. «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como escreve Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?
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27 março 2020
A mais bela canção sobre a condição teatral
Acho que a primeira vez que ouvi Time de David Bowie foi em 1998, num espectáculo de Ricardo Pais, no Teatro São João. Talvez não tenha sido a primeira, mas foi aí que a canção se me tornou memorável. Ricardo Pais garante que é a mais bela canção sobre a condição teatral. Canta Bowie: «Olho para o relógio, são 9h25 e penso: ‘Meu Deus, ainda estou vivo!’ Devíamos estar agora a entrar em cena.» Hoje é Dia Mundial do Teatro. Ainda estamos vivos — e devíamos estar a entrar em cena... O Teatro estabelece uma relação peculiar com o tempo: é efémero, fugaz e, no entanto, como que suspende o tempo, iludindo a morte. «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como escreve Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?
11 fevereiro 2019
«A coisa mais profunda que Hamlet disse»
Cumpriu-se agora um ano sobre o meu início de funções como gestor público – aquilo que, no português desembaraçado das redes sociais, se designa por um tacho. O tempo, esse bem de primeiríssima necessidade, desatou a escassear e raramente tenho agora a oportunidade de me abandonar à leitura – à leitura de outras coisas que não contratos, relatórios e ofícios, géneros literários cujo protocolo eu desconhecia. Esta nova condição está, paulatinamente, a embotar-me o espírito, mas também me tornou sensível a aspectos e minudências para que, ainda há escassos meses, não me encontrava preparado ou disponível. É o caso de um pequenino passo do famigerado solilóquio Ser ou não ser de Hamlet, no qual o jovem príncipe da Dinamarca pondera sobre o suicídio e sobre aquilo que dita o seu adiamento – a aterradora hipótese de, já cadáveres, continuarmos a desejar: «Pois, nesse sono da morte que sonhos virão…?» Não fosse este terror, não faltariam razões para darmos uso a «um punhal despido», assevera Hamlet. Que razões são essas, que justificariam o suicídio? No catálogo do herói, surge, logo após a aflição de um amor não correspondido, o desgosto administrativo: «as demoras legais, a insolência dos gabinetes…» Nos seus Silogismos da Amargura, o filósofo E. M. Cioran garante que esta foi «a coisa mais profunda que Hamlet disse». Estou consciente de que Hamlet disse muitas coisas profundas, mas, na taciturna celebração do meu primeiro aniversário como gestor público, inclino-me a concordar.
26 outubro 2017
O demónio, esse citador
Satan addressing his potentates (ca. 1816-1818), de William Blake
Ouvi na televisão que um juiz desembargador do Porto citou a Bíblia para justificar as agressões de um marido traído (e — terei ouvido bem? — de um ex-amante) a uma «mulher adúltera». Isto nada prova contra a Escritura, e não chega sequer a agravar a sua fama. (O nosso Nobel da Literatura estimara-a já como um «manual de maus costumes».) Não esqueçamos que o próprio diabo cita o texto sagrado. É o que sucede no episódio das tentações de Jesus no deserto, quando o demónio cita escrupulosamente o Salmo 91. É, aliás, este episódio dos Evangelhos que António, esse cristão tão caridoso, tem em mente ao advertir Bassânio contra o judeu Shylock, que habilidosamente lançara mão de uma narrativa veterotestamentária sobre Jacob e o sogro deste, Labão:
O diabo cita a Escritura p’ra seu propósito.
A alma vil gerando testemunho santo
É como um vilão pondo no rosto um sorriso,
Maçã de bom aspecto podre no seu âmago.
William Shakespeare — O Mercador de Veneza (trad. Daniel Jonas)
O demónio é um citador. Tem sempre na ponta da língua um versículo bíblico adequado à circunstância. Nos acampamentos de Verão evangélicos, arrebataria o primeiro prémio nessa modalidade olímpica ainda não reconhecida que dá pelo nome de destreza bíblica. Vladimir Soloviev — poeta e filósofo russo da segunda metade do séc. XIX que se tornou especialmente próximo de Dostoievski — vai mais longe ainda: numa novela, figura o Anticristo a ser distinguido com o doutoramento honoris causa em Teologia Bíblica pela Universidade de Tübingen. Evidentemente, demonizar o juiz desembargador seria não apenas excessivo como inteiramente inadequado, pois outorgaria à obtusidade e ao cretinismo um glamour que só ao Satanás de Milton e Blake é devido. Em todo o caso, sempre que me dizem que alguém citou a Bíblia, estremeço. Eu próprio cito amiúde a Escritura, o que talvez devesse pôr em guarda aqueles que comigo ainda admitem conviver.
14 setembro 2017
Considerações intempestivas
fotograma de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
O tempo foge, ou o tempo permanece? «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como no Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?
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