19/05/2019

Elogio da lentidão (IV)

Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
Nelson Rodrigues

11/05/2019

Eunucos e programadores

Lord Varys, Master of Whisperers

Debate sobre a internacionalização (essa sereiazinha…) das artes performativas: uma pessoa na plateia contesta à organização do encontro a composição do painel, não em termos de competência ou saber, mas em termos de género e raça: cinco homens, todos eles brancos e acima dos 40 anos de idade. O embaraço é indisfarçável, talvez porque a observação expõe uma dolorosa contradição. Afinal, o discurso de programadores de teatro e dança parece hoje dominado, um pouco enjoativamente, pelas questões de identidade e de género. Homem branco, prestes a completar 43 anos, sofro também o incómodo dos oradores caucasianos. Mas enquanto um ou outro tenta desembaraçar-se da questão como sabe ou pode, tudo o que me vem à cabeça é uma réplica do eunuco Varys, no episódio de domingo passado de A Guerra dos Tronos: Cocks are important, I’m afraid.

05/05/2019

BabyTV

No Dia da Mãe.

Às animações que a BabyTV emite depois das dez da noite aplica-se a mesma censura que é tão frequentemente feita aos filmes pornográficos — falta-lhes enredo.

28/04/2019

E-mail

O cirurgião abre o paciente, e volta imediatamente a fechá-lo: o mal espalhou-se, não há nada que ele possa fazer. Esta sensação toma também conta de mim quando abro o e-mail.

21/04/2019

«Onde passa a corrente de ar do inexplicável»


Deixo por momentos ao menos as cerimónias e os ritos da mais santa das semanas cristãs e tento extrair dos textos sagrados que na igreja se lêem, mas nem sempre se ouvem, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem sobre a vida de um grande homem ou de uma grande vítima. Em suma, o desenrolar de uma das mais belas histórias do mundo.
Um prólogo quase irónico: uma pobre gente chega à capital com o seu mestre bem-amado, aclamado pela mesma multidão que em breve o repudiará. Uma refeição de festa frugal: um traidor adivinhado entre os doze convivas; um ingénuo que proclama alto a sua fidelidade e será o primeiro a fraquejar; o mais jovem e mais amado apoiado com indolência ao ombro do mestre, talvez envolto naquele casulo dourado que sempre protege a juventude; o mestre, isolado, pela sabedoria e pela visão, no meio dos ignorantes e dos fracos que são o que ele encontrou de melhor para o seguirem e continuarem a sua obra.
Caída a noite, o mestre ainda mais só, no canto de um pomar que domina a cidade onde todos, excepto os seus inimigos, o esqueceram: as longas horas negras onde a presciência se convola em angústia; a vítima a orar para que a prova esperada lhe seja poupada, mas sabendo que o não pode ser e também que, «se tivesse de o refazer», faria o mesmo caminho; «a alma eterna» que observa o seu voto «apesar da solidão da noite». (Que Aragon e Rimbaud nos ajudem a compreender Marcos e João.) Enquanto ele sofre, os seus amigos dormem, incapazes de compreender a urgência do momento. «Não podeis vigiar um momento comigo?» Não: eles não podem; eles têm sono; e aquele que os chama não ignora que virá o tempo em que estes infelizes terão também de sofrer e vigiar.
A chegada do bando, para prender o acusado. O ardente defensor que se arrisca a piorar as coisas e se desdirá logo a seguir. Os dois aparelhos, o eclesiástico e o laico, incomodados, passando-se mutuamente o acusado; o eterno diálogo da fé e do cepticismo completando-se um ao outro: «Quem ama a verdade, escuta-me.» – «O que é a verdade?» O alto funcionário ultrapassado que gostaria bem de lavar as mãos deste caso e entrega à multidão a escolha do preso a libertar para a festa próxima, e o que ela escolhe é evidentemente a vedeta do crime, não o justo inocente. O condenado, insultado, flagelado, atormentado, por brutamontes que são provavelmente bons pais de família, bons vizinhos, boas pessoas, obrigado a arrastar a trave do seu martírio como, nos campos, por vezes os prisioneiros arrastavam uma pá para cavar a sepultura. O pequeno grupo de amigos que ficou com o supliciado, aceitando a humilhação e o perigo que decorrem da fidelidade. A algazarra dos guardas que disputam entre si a túnica esvaziada, como em tempo de guerra os camaradas de um morto lutam às vezes por um cinturão ou umas botas.
A ternura revelando-se nas recomendações aos seus, por parte de alguém até então demasiado absorvido pela sua missão para ter tempo de pensar neles: o moribundo dando como filho à sua mãe o melhor amigo. (Assim hoje, por toda a parte, as últimas cartas de condenados ou soldados partindo em missão de que não voltarão, cheias de conselhos sobre o casamento da irmã ou a pensão da velha mãe.) A troca de palavras com um condenado de delito comum em quem se encontrou um homem de coração; a longa agonia ao Sol, ao vento agreste, à vista da multidão que, pouco a pouco, se vai porque aquilo nunca mais acaba. A exclamação parece indicar que, para que tudo se cumpra, o desespero é um estado por que se tem de passar. «Porque me abandonaste?» E, horas depois, a esta pobre gente será dada como esmola uma sepultura para o seu corpo, e as sentinelas (há que desconfiar dos ajuntamentos) dormirão ao pé do muro como antes dormiram junto do amigo vivo e angustiado os seus humildes companheiros fatigados.
E que mais? As horas, os dias, as semanas que escorrem entre o luto e a confiança, entre fantasmas e Deus, e nessa atmosfera crepuscular onde nada é totalmente confirmado, verificado, concludente, mas onde passa a corrente de ar do inexplicável, como alguns desses pobres relatórios de sociedades para o avanço das ciências psíquicas, tanto mais perturbantes quanto são inconclusivos. A antiga meretriz vinda ao cemitério orar e chorar e julgando reconhecer aquele que perdeu no jardineiro. (Que melhor nome poderia dar-se àquele que faz crescer tantas sementes na alma humana?) E mais tarde, quando a emoção, como dizem os relatórios da polícia, acalmou, os dois fiéis pela rua fora, a quem se junta um simpático viajante que aceita sentar-se com eles à mesa da hospedaria, e desaparece no momento em que eles julgam reconhecê-Lo. Uma das mais belas histórias do mundo termina com os reflexos de uma Presença, bastante semelhantes a nuvens que o Sol já posto ainda ilumina.
«Eu sentir-me-ia mais perto de Jesus se ele tivesse sido fuzilado em vez de crucificado», dizia-me um dia um jovem oficial vindo da Guerra da Coreia. Foi para ele e para todos aqueles a quem é difícil encontrar o essencial por debaixo do acessório do passado que aceitei o risco de escrever o que precede. 

Marguerite Yourcenar – “Sequência da Páscoa: uma das mais belas histórias do mundo” (1977). In O Tempo, esse grande escultor. Trad. Helena Vaz da Silva. Lisboa, Difel, 2001, pp. 107-109.

A era do vazio

Em 2008, criei um blogue que não sobreviveu mais do que duas ou três semanas, talvez menos. Chamava-se Descobertas junto à costa, porque sempre fiz mais fé na descoberta do que na pesquisa: «Eu não procuro: encontro.» Fazia-se de achamentos que não decorrem do espírito aventuroso de quem se arrisca em mar alto, mas do ócio de quem passeia ao rés da água quando a maré vaza. Desse blogue nado-morto resgato um texto postado a 23 de Março de 2008, Domingo de Páscoa. Não estou certo, mas pode dizer respeito à última vez em que participei num serviço religioso feito ao romper do dia.

Perguntam-me por que razão todos os anos, no domingo de Páscoa, me levanto invulgarmente cedo – eu, que só vejo o nascer do sol inadvertidamente, quando me deixo ficar a pé para além da hora recomendável – para participar numa simplória celebração pascal no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia. O que dizer, se o evento perdeu a atractividade de outros tempos, só arregimentando umas três ou quatro dezenas de baptistas tolhidos pelo sono e pelo frio (o termómetro do meu carro marcava 3 graus, e eu acredito, porque é alemão)? Antes de mais, esclareço que à minha alma é estranho tanto o impulso gregário como a vocação auto-sacrificial. Não há também um único amigo de adolescência que tenha o hábito de rever nessa ocasião festiva. A minha parca sociabilidade atinge, de resto, um novo mínimo histórico sempre que me levanto às seis da manhã. À excepção das ruas e estradas desertas, coisa que não deixa de suscitar uma estranha sensação de beleza que faz remotamente pensar nas imagens de Hoper, nada há de particularmente notável no trajecto até ao Monte da Virgem. Nem sequer as antenas da RTP-Porto suscitam uma particular comoção no meu espírito. O rosto estremunhado dos meus correligionários baptistas em nada reflecte o assombro do acontecimento celebrado. Sendo certo que haverá muitas outras formas de evocar a ressurreição de Cristo, o que lá vou eu ver e fazer? Admito que a pergunta tem a sua pertinência, mas consola-me o facto de que tudo aquilo que os discípulos viram nessa ditosa madrugada de domingo foi apenas um túmulo vazio.

13/04/2019

Elogio da lentidão (III)



I always liked it slow:
I never liked it fast
With you it’s got to go:
With me it’s got to last

It’s not because I’m old
It’s not the life I led
I always liked it slow
That’s what my momma said

I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

So baby let me go
You’re wanted back in town
In case they want to know
I’m just trying to slow it down

Leonard Cohen – “Slow” (Popular Problems, 2014)

Elogio da lentidão (II)


Festina lente: ilustração contida numa obra do dramaturgo, prelado e historiador italiano Paolo Giovio (1483-1552), um emblema que associa uma borboleta e um caranguejo, «duas formas animais bizarras e simétricas, que estabelecem uma com a outra uma inesperada harmonia» (Italo Calvino). Podemos traduzir esta fórmula latina por apressa-te lentamente ou, recuperando uma divisa análoga, devagar que tenho pressa.

Elogio da lentidão (I)

«John Franklin, o navegador que descobriu a Passagem do Noroeste, era uma pessoa muito lenta e dedicou-se a profissões nas quais ser lento era uma vantagem competitiva. Decidiu ser navegador. Quando estava num momento crítico da sua expedição, as temperaturas baixaram muito. O mar começou a gelar e ele tinha de tomar uma decisão. Ele era o capitão. Ia para um lado ou para o outro? A tripulação estava com muito medo e ele demorou muito tempo a decidir. Tomou a decisão certa, mas a tripulação estava muito ansiosa. O biógrafo que contou a sua vida escreveu que Franklin "escapou da morte porque era mais lento do que ela". Há certos erros dos quais, pessoal e colectivamente, só nos livramos se pararmos, se formos um pouco lentos. Se formos capazes de ter uma certa antecipação do futuro. Eu tenho um detector de preguiçosos para as organizações. Quem é o que menos trabalha? É o que está mais agitado. E por vezes o mais lento é o que está a trabalhar mais, o que está a transformar. No mundo actual, há demasiada agitação improdutiva. Na política isto também se aplica. Há uma grande agitação, mas há uma grande incapacidade de transformar.»
Daniel Innerarity, politólogo basco, aqui.

15/02/2019

Subsídios para a caracterização do gestor público (IV)

DOM UBU: P’la minha candeia verde, já sou rei deste país. Já apanhei uma indigestão e vão agora trazer-me a minha grande capelina.
DONA UBU: E é feita de quê, Dom Ubu? Podemos bem ser reis, mas temos que ser poupadinhos.
Alfred Jarry – Rei Ubu (Acto III, cena 1)
Trad. Luísa Costa Gomes

13/02/2019

Subsídios para a caracterização do gestor público (III)

Ninguém menos é rei, que quem tem reino.
Ah, que não é isto estado, é cativeiro
de muitos desejado, mas mal crido,
üa servidão pomposa, um grã trabalho
escondido sob nome de descanso.
António Ferreira – Castro (Acto II, cena 2)

12/02/2019

Subsídios para a caracterização do gestor público (II)

O vienense é um aguentador de primeira. Cá na nossa terra suportam‑se todos os sofrimentos como se fosse um divertimento.
Karl Kraus – Os Últimos Dias da Humanidade (Acto I, cena 11)
Trad. António Sousa Ribeiro

Subsídios para a caracterização do gestor público (I)

Todo o gestor público se assemelha a Jocasta. Isto não significa que sejam todos iguais, como se diz dos homens. Confrontada com o horror e a ignomínia, a Jocasta de Sófocles entra no palácio, fecha as portas e enforca-se. Já a Jocasta de Eurípides, bem, essa aguenta tudo.

11/02/2019

«A coisa mais profunda que Hamlet disse»

Cumpriu-se agora um ano sobre o meu início de funções como gestor público – aquilo que, no português desembaraçado das redes sociais, se designa por um tacho. O tempo, esse bem de primeiríssima necessidade, desatou a escassear e raramente tenho agora a oportunidade de me abandonar à leitura – à leitura de outras coisas que não contratos, relatórios e ofícios, géneros literários cujo protocolo eu desconhecia. Esta nova condição está, paulatinamente, a embotar-me o espírito, mas também me tornou sensível a aspectos e minudências para que, ainda há escassos meses, não me encontrava preparado ou disponível. É o caso de um pequenino passo do famigerado solilóquio Ser ou não ser de Hamlet, no qual o jovem príncipe da Dinamarca pondera sobre o suicídio e sobre aquilo que dita o seu adiamento – a aterradora hipótese de, já cadáveres, continuarmos a desejar: «Pois, nesse sono da morte que sonhos virão…?» Não fosse este terror, não faltariam razões para darmos uso a «um punhal despido», assevera Hamlet. Que razões são essas, que justificariam o suicídio? No catálogo do herói, surge, logo após a aflição de um amor não correspondido, o desgosto administrativo: «as demoras legais, a insolência dos gabinetes…» Nos seus Silogismos da Amargura, o filósofo E. M. Cioran garante que esta foi «a coisa mais profunda que Hamlet disse». Estou consciente de que Hamlet disse muitas coisas profundas, mas, na taciturna celebração do meu primeiro aniversário como gestor público, inclino-me a concordar.