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27 março 2020

A mais bela canção sobre a condição teatral


Acho que a primeira vez que ouvi Time de David Bowie foi em 1998, num espectáculo de Ricardo Pais, no Teatro São João. Talvez não tenha sido a primeira, mas foi aí que a canção se me tornou memorável. Ricardo Pais garante que é a mais bela canção sobre a condição teatral. Canta Bowie: «Olho para o relógio, são 9h25 e penso: ‘Meu Deus, ainda estou vivo!’ Devíamos estar agora a entrar em cena.» Hoje é Dia Mundial do Teatro. Ainda estamos vivos — e devíamos estar a entrar em cena... O Teatro estabelece uma relação peculiar com o tempo: é efémero, fugaz e, no entanto, como que suspende o tempo, iludindo a morte. «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como escreve Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?

25 dezembro 2017

«Um cachopinho tam fermoso e sesudinho»

pormenor da Custódia de Belém (1506), tradicionalmente atribuída a Gil Vicente

É conhecida a fascinação que o extremamente pequeno — miniaturas, soldados de chumbo, selos, microgramas — pode produzir em nós. É como se a significação de um objecto pudesse ser inversamente proporcional à sua dimensão: que mundo, abrigado no interior aquoso de um globo de cristal, se expande diante dos olhos de uma criança (ou de um adulto) quando a neve se agita sobre uma minúscula paisagem de Inverno? Senti sempre esse fascínio, mas ele agravou-se grandemente com a leitura de Walter Benjamin. O seu próprio olhar, diz Adorno, era «microscópico» e a sua caligrafia quase ilegível de tão minúscula. No ensaio que lhe dedicou em Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt refere-se ao amor de Benjamin por dois pequenos grãos de trigo, existentes na secção judaica do Museu de Cluny, que concentrariam em si todo o Shemá Israel, «a própria essência do judaísmo». Gil Vicente foi também um miniaturista: basta pensar no Breve Sumário da História de Deus, que, para além de condensar um género dramático medieval que adquiria frequentemente proporções de saga, sintetiza em mil versos toda a historia salutis. De resto, estivéssemos certos de que a Custódia de Belém, essa catedral de 73 centímetros feita com o primeiro ouro das Índias, saiu efectivamente das mãos do dramaturgo das Barcas, não precisaríamos de prova suplementar que atestasse o interesse de Vicente por obras meúdas. Mas são os autos que testemunham o mais vivo espanto perante uma miniaturização — a de Deus. No teatro vicentino, a redução do Altíssimo ao corpo frágil de um «cachopinho tam fermoso e sesudinho» (Pastoril Português) transtorna a ordem das coisas: o rústico Gil do Pastoril Castelhano torna-se inexplicavelmente versado nas rubricas da teologia, e no Breve Sumário o «ornado» Mundo, ao ver Deus humanado, toma-se subitamente por casebre — uma «baixa pousada». O Natal tem tudo que ver com a perturbação das nossas noções de alto e baixo, grande e pequeno, forte e fraco, celestial e terreal, cósmico e íntimo, eterno e passageiro, movible y immovible. Deus num bebé recém-nascido, o Sol numa gota de água.

20 setembro 2017

Suspender o dia

Nos últimos anos, tenho trabalhado de perto com um encenador, Nuno Carinhas, cujos espectáculos abrem frequentemente com uma cena não escrita, uma cena que o texto não prevê. Forneço um exemplo geminado, digamos: no início de Alma (2012), de Gil Vicente, o espectador entrevia na semiobscuridade uma série de corpos estendidos, em posição fetal: personagens à espera do seu tempo?, cadáveres juncando um campo de batalha? Algo análogo ocorria na abertura do Macbeth estreado em Junho deste ano: a cena figurava um território de desolação com corpos jacentes, ou um caos primordial — o tohu e bohu do teatro, com cabos suspensos e ferros no chão — onde se formavam figuras. Que pretendiam estas cenas de abertura, estas antecâmaras da acção? Produzir uma cesura com o nosso tempo, suspender o dia, e instaurar o espaço-tempo do ritual. O teatro estabelece uma relação muito particular com o tempo, mas reencontramos este desígnio também fora dele: um escultor como Rui Chafes assevera que «não existe arte se não houver a ambição de parar o tempo». Talvez neste ponto radique o elemento revolucionário de alguma arte. Um incidente ocorrido no primeiro desses três dias gloriosos de 1830 que ficaram conhecidos como a Revolução de Julho pode ajudar-nos a reconhecê-lo. Walter Benjamin relata esse incidente nas suas teses sobre a filosofia da História: «Chegada a noite do primeiro dia de luta, aconteceu que, em diversos locais de Paris, várias pessoas, independentemente umas das outras e ao mesmo tempo, começaram a disparar contra os relógios das torres.» Os revolucionários não queriam acelerar o tempo, mas pará-lo: «Alvejavam os relógios para suspender o dia.»

14 setembro 2017

Considerações intempestivas

fotograma de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)

O tempo foge, ou o tempo permanece? «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como no Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?

29 agosto 2017

Take yourself lightly

 
 
fotogramas de Angel, curta-metragem de Derek May (1966)

Um fundamentalista raramente se ri — e nunca de si mesmo. Isto deveria dar-nos que pensar, sobretudo àqueles que se declaram ‘religiosos’ ou ‘cristãos’. Todos aqueles que se levam demasiado a sério tornam-se infalivelmente ridículos, e talvez não haja maior sabedoria do que a de aprender a rir-se de si mesmo. Um teólogo dominicano, Herbert McCabe, diz que Deus se diverte à custa dos seus filhos circunspectos, azedos e solenes. Lutero recomendava que zombássemos do diabo e dele ríssemos. (Gil Vicente foi campeão olímpico nesta modalidade.) Devemos fazer o mesmo connosco próprios. Devo fazer o mesmo comigo próprio. Se os anjos conseguem voar — garante Chesterton no seu impagável Orthodoxy — é porque se encaram a si mesmos com ligeireza: Angels can fly because they can take themselves lightly. Afeiçoei-me ao filmezinho de Derek May não apenas porque cada fotograma parece um desenho a tinta-da-china, ou por causa do balanço da música de Cohen. O filme interessa-me porque estas criaturas — homem, mulher e cão — são anjos desastrados: correm, saltam, tropeçam, caem, riem-se, beijam-se, dizem disparates. As asas não lhes servem de muito: não conseguem elevar-se acima do solo, a não ser para se estatelarem. E, no entanto, dir-se-ia que levantam voo. Porquê? Because they can take themselves lightly.

20 agosto 2017

«Alma bem-aventurada, dos anjos tanto querida»

Alma amparada pelo Anjo, rumo à «pousada verdadeira».
encenação Nuno Carinhas (TNSJ, 2012); foto João Tuna

«Gil Vicente é o mais Anjo e o mais Demónio dos poetas portugueses», escreveu Teixeira de Pascoaes, acertando em cheio. Curiosamente, lembramo-nos mais dos seus diabos (de facto, em Vicente encontramos o inteiro repositório das feições que o diabo foi adquirindo, incluindo aquelas com que o demónio assoma em obras como as de Kafka e Walser) do que dos seus anjos, que têm tanto que se lhes diga. Eis um deles, saído desse drama singularíssimo que é o Auto da Alma. Tanto quanto sei, não se encontra em todo o teatro medieval europeu outro drama de uma Alma. A thing of beauty.

ANJO:
Alma humana, formada
de nenhũa cousa, feita
mui preciosa,
de corrupção separada,
e esmaltada
naquela frágua perfeita,
gloriosa.

Planta neste vale posta
pera dar celestes flores
olorosas
e pera serdes tresposta
em a alta costa,
onde se criam primores
mais que rosas.

Planta sois e caminheira,
que ainda que estais vos is
donde viestes.
Vossa pátria verdadeira
é ser herdeira
da glória que conseguis:
andai prestes.

Alma bem-aventurada,
dos anjos tanto querida,
não durmais;
um ponto não esteis parada,
que a jornada
muito em breve é fenecida,
se atentais.

Gil Vicente – Auto da Alma (1518)