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13 abril 2019

Elogio da lentidão (III)



I always liked it slow:
I never liked it fast
With you it’s got to go:
With me it’s got to last

It’s not because I’m old
It’s not the life I led
I always liked it slow
That’s what my momma said

I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

So baby let me go
You’re wanted back in town
In case they want to know
I’m just trying to slow it down

Leonard Cohen – “Slow” (Popular Problems, 2014)

13 agosto 2018

He knew I would not hide


Um profeta como Isaías ou um lazy bastard living in a suit? Leonard Cohen ocupa um lugar de destaque na minha pobre discoteca. Nos anos sessenta, reescreveu a história de Abraão e Isaac, uma das narrativas mais belas — e escandalosas — das Escrituras. Uso essa canção para ilustrar aos meus alunos o modo como a Bíblia fecunda, misteriosamente, a imaginação dos artistas mais interpelantes do nosso tempo. Na canção “Story of Isaac”, magnetizam-me pormenores apócrifos como os olhos azuis de Abraão ou o seu machado de ouro, manifestação simbólica da fé de um homem chamado a sacrificar o seu único filho. Sabemos que um anjo suspende esse gesto, e a faca que iria degolar serve só para rasgar os nós da atadura… O que a música de Cohen faz brilhar não é o tremeluzente gume da faca de Abraão sobre o pescoço do filho, mas a beleza da palavra: And my father’s hand was trembling/ with the beauty of the word.

29 agosto 2017

Take yourself lightly

 
 
fotogramas de Angel, curta-metragem de Derek May (1966)

Um fundamentalista raramente se ri — e nunca de si mesmo. Isto deveria dar-nos que pensar, sobretudo àqueles que se declaram ‘religiosos’ ou ‘cristãos’. Todos aqueles que se levam demasiado a sério tornam-se infalivelmente ridículos, e talvez não haja maior sabedoria do que a de aprender a rir-se de si mesmo. Um teólogo dominicano, Herbert McCabe, diz que Deus se diverte à custa dos seus filhos circunspectos, azedos e solenes. Lutero recomendava que zombássemos do diabo e dele ríssemos. (Gil Vicente foi campeão olímpico nesta modalidade.) Devemos fazer o mesmo connosco próprios. Devo fazer o mesmo comigo próprio. Se os anjos conseguem voar — garante Chesterton no seu impagável Orthodoxy — é porque se encaram a si mesmos com ligeireza: Angels can fly because they can take themselves lightly. Afeiçoei-me ao filmezinho de Derek May não apenas porque cada fotograma parece um desenho a tinta-da-china, ou por causa do balanço da música de Cohen. O filme interessa-me porque estas criaturas — homem, mulher e cão — são anjos desastrados: correm, saltam, tropeçam, caem, riem-se, beijam-se, dizem disparates. As asas não lhes servem de muito: não conseguem elevar-se acima do solo, a não ser para se estatelarem. E, no entanto, dir-se-ia que levantam voo. Porquê? Because they can take themselves lightly.

23 agosto 2017

«Excuse me, miss, can I borrow your wings?»


Angel, uma curta de animação realizada por Derek May em 1966 para o National Film Board do Canadá. A música é do jovem talmúdico Leonard Cohen, interpretada por The Stormy Clovers. A dado momento, o rapaz pergunta à rapariga: Where does it hurt? Ela responde: In the wings. Com mais qualidade, não no sítio do costume, mas aqui.