Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.
Nelson Rodrigues
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
19 maio 2019
23 setembro 2017
Intolerante, sim, mas de esquerda.
É estranho: durante anos a fio, ignoramos a existência de uma figura histórica, um livro, uma canção, um acontecimento, e num único dia — ou mesmo num espaço de horas — atravessa-se no nosso caminho duas vezes. («Não há coincidência burra», adverte Nelson Rodrigues.) Esta manhã, antes de sair de casa, publicava neste blogue uma formidável máxima de Adlai Stevenson — de quem, em rigor, nada sabia até ler um romance de Saul Bellow — e, no final da noite, revi Annie Hall, dando-me conta que Alvy Singer, o comediante inescapavelmente neurótico interpretado por Woody Allen (I’m a bigot, but for the Left!), é apoiante de Adlai Stevenson, participando numa das acções de campanha do candidato democrata às eleições presidenciais americanas. Aqui fica o início do discurso de Alvy (que não consta do videozinho do YouTube), para a eventualidade de algum candidato da oposição nestas autárquicas o pretender parafrasear num comício ou debate televisivo: I interestingly had dated a woman in the Eisenhower Administration briefly. And it was ironic to me ‘cause I was trying to do to her what Eisenhower has been doing to the country for the last eight years.
11 julho 2017
O óbvio ululante
«A evidência desapareceu entre os unicórnios.» Li em tempos esta frase num livro de Roberto Calasso e nunca fiquei seguro de a ter percebido. Bem pode tratar-se de uma esfinge sem segredo, mas certo é que se alojou numa qualquer prega da minha memória e ali permanece, assomando de quando em vez. Quererá ela dizer que aquilo que se afigurava como evidente, como certo, se eclipsou para sempre? Que com o cancelamento do mítico ou do fabuloso também o óbvio se dissolveu? Exemplos não são o meu forte, mas garanto que não se trata de um problema ‘filosófico’, mas de uma questão da vida-de-todos-os-dias. O óbvio obscureceu-se aos nossos olhos. Para o apreender não basta agora ser lúcido: é preciso estar alucinado. Uma das minhas máximas preferidas de Nelson Rodrigues (a quem pertence também a expressão que dá título a esta mensagem) é a seguinte: «Só o profeta consegue enxergar o óbvio.» Podemos aprender isto também com A Carta Roubada de Poe: só um espírito excessivamente brilhante como Dupin consegue antever o que está à frente dos olhos dos outros, a saber: que a comprometedora missiva foi escondida no ar, que está oculta — à vista de todos. Assim, o óbvio.
Subscrever:
Mensagens (Atom)