12 fevereiro 2018

PONTO FINAL

«Mas agora calo-me. O fim beija-se no fim, mesmo que o começo não tenha chegado ao fim.»
Robert Walser, Branca de Neve

11 fevereiro 2018

«Tudo seria melhor se não tivesse feito aquele doutoramento.»

Assumi nos últimos dias responsabilidades profissionais que me levam, uma vez mais, a postergar o meu projecto de doutoramento e a enjeitar uma bolsa de investigação que o Estado português me atribuiu para que me ocupasse de um assunto que, numa perspectiva assaz optimista, interessa apenas a uma pessoa: eu próprio. (Insisto: trata-se de uma perspectiva optimista.) Encontrei consolo neste passo de um conto de Flannery O’Connor: «De cada vez que olhava para a filha desta maneira, não podia deixar de pensar que tudo seria melhor se a rapariga não tivesse feito aquele doutoramento. Não lhe trouxera nada de bom, e agora que o fizera também já não tinha desculpa para voltar à universidade.» (“A gente sã do campo”, in Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, trad. Clara Pinto Correia.)

Gostar de futebol


“Contratem-na.”

03 janeiro 2018

02 janeiro 2018

2017

O ano de 2017 perturbaria a divisão da minha existência entre anos bons e anos maus. Aplico o condicional porque nunca me entretive com semelhante contabilidade analítica. Por um lado, sou desmemoriado em relação à cronologia da realidade exterior: baralho a ordem dos eventos e sou pródigo em anacronismos. Por outro, é o tipo de balanço que faz recuar um melancólico, para quem «a vida é, toda ela, um acto de demolição» (Scott Fitzgerald). De resto, essa divisão revela-se artificial e falaciosa, porque o calendário introduz, com as suas quadrículas, descontinuidades numa realidade que é fluida — o tempo —, falseando-a. Algo análogo se passa com consciência e linguagem, segundo Henri Bergson: constituída por elementos descontínuos (unidades, sintagmas, etc.), a linguagem trai aquilo que designamos por vida interior, caracterizada por um incessante devir, por um continuum ininterrupto. A linguagem seria, assim, um velho autocarro a perseguir uma aeronave — a consciência, a percepção, a memória, a imaginação. Mas deixemos isto, por ora. Dizia eu que 2017 arruinaria o projecto de classificar os meus anos em bons e maus. Porque, na verdade, foi um ano bom e mau ao mesmo tempo. Não quero com isto dizer que tenha sido feito de coisas boas e de coisas más, de ganhos e de perdas — o que, em rigor, caracteriza qualquer ano —, mas antes que coisas importantes que nele vivi foram simultânea e indestrinçavelmente boas e más — bênçãos e maldições. (Dizia um teólogo que, quando Deus abençoa, com o mesmo gesto também amaldiçoa.) Em 2017, não me aconteceu rir em algumas circunstâncias e chorar noutras. Não: ri e chorei ao mesmo tempo, como nos sucede nas peças de Beckett quando temos a felicidade de serem bem feitas: low comedies com reminiscências de alta tragédia… As minhas expectativas foram desfeitas e refeitas uma e outra vez, e senti-me virado sucessivamente do avesso, com os músculos e tendões numa estaca, ao Sol. Nos últimos dias do ano, vi-me a citar uma máxima talmúdica de Woody Allen: If you want to make God laugh, tell him about your plans. Quando me lembrar de 2017 no futuro, vou dizer sem hesitação: Foi um tempo terrível!, apressando-me em seguida a contestá-lo com veemência: Que disparate, foi um tempo maravilhoso! Por isso, associo 2017 ao início de A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, porque deu voz ao meu susto e ao meu privilégio. Não vivi em duas cidades, mas é como se tivesse vivido duas histórias, tão inseparáveis afinal quanto o avesso e o direito. Transcrevo esse passo abaixo numa tradução talvez demasiado livre:
Foi um tempo magnífico, foi um tempo horrível. Foi o tempo em que sabíamos tudo, foi o tempo em que não sabíamos nada. Foi o tempo da crença, foi o tempo da incredulidade. Foi o tempo em que tudo se iluminou, foi o tempo em que tudo ficou às escuras. Foi a Primavera da esperança, foi o Inverno do desespero. Tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós. Íamos em direcção ao paraíso, e íamos em sentido contrário.

25 dezembro 2017

«Um cachopinho tam fermoso e sesudinho»

pormenor da Custódia de Belém (1506), tradicionalmente atribuída a Gil Vicente

É conhecida a fascinação que o extremamente pequeno — miniaturas, soldados de chumbo, selos, microgramas — pode produzir em nós. É como se a significação de um objecto pudesse ser inversamente proporcional à sua dimensão: que mundo, abrigado no interior aquoso de um globo de cristal, se expande diante dos olhos de uma criança (ou de um adulto) quando a neve se agita sobre uma minúscula paisagem de Inverno? Senti sempre esse fascínio, mas ele agravou-se grandemente com a leitura de Walter Benjamin. O seu próprio olhar, diz Adorno, era «microscópico» e a sua caligrafia quase ilegível de tão minúscula. No ensaio que lhe dedicou em Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt refere-se ao amor de Benjamin por dois pequenos grãos de trigo, existentes na secção judaica do Museu de Cluny, que concentrariam em si todo o Shemá Israel, «a própria essência do judaísmo». Gil Vicente foi também um miniaturista: basta pensar no Breve Sumário da História de Deus, que, para além de condensar um género dramático medieval que adquiria frequentemente proporções de saga, sintetiza em mil versos toda a historia salutis. De resto, estivéssemos certos de que a Custódia de Belém, essa catedral de 73 centímetros feita com o primeiro ouro das Índias, saiu efectivamente das mãos do dramaturgo das Barcas, não precisaríamos de prova suplementar que atestasse o interesse de Vicente por obras meúdas. Mas são os autos que testemunham o mais vivo espanto perante uma miniaturização — a de Deus. No teatro vicentino, a redução do Altíssimo ao corpo frágil de um «cachopinho tam fermoso e sesudinho» (Pastoril Português) transtorna a ordem das coisas: o rústico Gil do Pastoril Castelhano torna-se inexplicavelmente versado nas rubricas da teologia, e no Breve Sumário o «ornado» Mundo, ao ver Deus humanado, toma-se subitamente por casebre — uma «baixa pousada». O Natal tem tudo que ver com a perturbação das nossas noções de alto e baixo, grande e pequeno, forte e fraco, celestial e terreal, cósmico e íntimo, eterno e passageiro, movible y immovible. Deus num bebé recém-nascido, o Sol numa gota de água.

24 dezembro 2017

«O mais célebre dos seus aniversários»

Nascesse hoje, e seria num barco de imigrados, atirado ao mar juntamente com a mãe à vista da costa de Puglia ou da Calábria. Talvez continue a nascer assim, sem sobreviver, e o 25 de Dezembro seja apenas o mais célebre dos seus aniversários. Depois dele o tempo reduziu-se a um entretanto, a um parêntesis de vigília entre a sua morte e a sua nova vinda. Depois dele ninguém é residente, mas todos são refugiados à espera de um visto. Somos nós, bem nutridos do Ocidente, a coluna de estrangeiros em fila para lá do último guichet.

Erri De Luca — Caroço de Azeitona (trad. João Pedro Brito)

03 dezembro 2017

«Que farei eu para herdar a vida eterna?»

fotogramas do plano-sequência final de Some Came Running, de Vincente Minnelli (1958)

Revi ontem à noite Some Came Running, que deu em português Deus Sabe Quanto Amei. Vi o filme pela primeira vez no Teatro do Campo Alegre, no âmbito de um ciclo de homenagem a João Bénard da Costa. Foi no dia 3 de Junho de 2009 — «e nunca poderei ter outro dia assim». O melodrama de Minnelli produziu em mim uma comoção particular, e lembro-me de que na manhã seguinte me apressei a encomendar o DVD. Estranhamente, durante este tempo, não voltei a ver o filme. Não que tivesse ficado esquecido, soterrado por outros filmes que se impusessem como prioritários, ou que se visse sistematicamente protelado por afazeres, leituras, compromissos. Simplesmente, não me atrevi a revê-lo. Temeria que o filme não me solicitasse do mesmo modo que solicitara da primeira vez? Ou temeria o contrário: that inconsolable longing (C.S. Lewis) que tomou conta de mim em Junho de 2009? Não sei dizer. Como também não sei dizer ao certo por que razão ontem à noite me decidi finalmente, oito anos depois, a desselar o filme e a inseri-lo no leitor de DVD. Feliz ou infelizmente — também não sei dizer —, o telefone interrompeu por duas vezes a sessão de home cinema, perturbando o projecto de me abandonar à pieguice e liquefazer por completo. (Para os místicos medievais, as lágrimas eram um dom e, dos séculos VIII e IX em diante, proliferaram as orações pro petitione lacrimarum. Que mutação genética se operou entretanto na nossa sensibilidade para que as lágrimas sejam tão-somente uma manifestação de pieguice ou sentimentalismo?) Ainda assim, foi-me dado comover-me de novo com aquela criatura que Bénard da Costa classificou como «a mais bonita personagem que o cinema alguma vez inventou»: a Ginny de Shirley MacLaine, mulher perdida e achada que corre para o amor e para a morte. Essa rapariga, manifestamente incompetente para discutir obras e correntes literárias, «não sabe nada e percebe tudo», como também diz Bénard, enquanto a professora de literatura por quem o Dave Hirsch de Sinatra se apaixona «sabe tudo e não percebe nada». (Ao rever o filme, senti-me um pouco envergonhado por dar aulas de literatura, receando debitar patacoadas tão possidónias como aquelas que Miss French — que certeiro apelido! — profere, tão segura de si, sobre De Quincey ou Baudelaire.) Não sei se percebo o título original — Some Came Running —, que remete para um passo do Evangelho de Marcos (there came one running, na King James Version), quando alguém chega a correr e se ajoelha aos pés de Jesus de Nazaré, perguntando-lhe: «Bom mestre, que farei eu para herdar a vida eterna?» Na narrativa bíblica, aquele que chegara tão ligeiro afasta-se depois pesaroso, arrastando os pés, ao escutar a resposta de Jesus. Quem corre neste filme? E quem se retira pesada e pesarosamente? Quem herda a vida eterna, e quem a declina? Que coisa no-la pode garantir? E que coisa nos pode dela privar? Um dos momentos mais comoventes deste filme de Minnelli diz respeito ao gesto final de Bama, o incorrigível gambler e santo bebedor interpretado por Dean Martin, que não tira o chapéu ao longo de todo o filme — recusa-se a fazê-lo mesmo numa cama de hospital, depois de ter sido esfaqueado — para que possa tirá-lo na única ocasião em que verdadeiramente se justifica fazê-lo: o funeral de Ginny, que correra para interceptar a bala destinada ao homem que amava sem que fosse capaz de compreendê-lo. (Ninguém tem maior amor do que este…, como também dizem os evangelhos.) Por detrás de Dean Martin, um anjo de pedra e um rio, infalíveis símbolos de perenidade e de transitoriedade: as coisas eternas e as coisas breves, as coisas que permanecem para sempre e as coisas que passam para nunca mais voltar.

26 novembro 2017

O Deus das moscas

Não sou dos que blasfemam de Deus por ele ter criado as moscas.
Teixeira de Pascoaes — O Penitente (Camilo Castelo Branco)

25 novembro 2017

Os milagres de Manuel António Pina

Manuel António Pina ilustrado pela Abigail Ascenso (A Noite, Assírio & Alvim, 2017)

Decepcionado com os «conceitos e coisas» em que acreditou e nos quais descobriu «um rosto sórdido», Manuel António Pina encontrou na amizade «a tão frágil e melancólica pedra […] em que ‘construirei a minha igreja’».* Essa igreja permanece de pé, e os fiéis não a abandonaram. No passado sábado, amigos do poeta — um grémio designado Clube dos Amigos à Espera do Pina, uma alusão chistosa à sua irremediável falta de pontualidade — assinalaram o 74º aniversário do nascimento de MAP no Teatro da Vilarinha. Estive presente porque, nesse encontro, foi apresentada a nova edição de A Noite, uma peça de teatro de MAP agora decorada pela Abigail (decorar: o coração é que sabe!), ilustrações que, como viu Álvaro Magalhães na ocasião, se revelam tão expressivas na sua obscura economia cromática. Álvaro Magalhães recordou os vários Pinas: o Pina poeta, o Pina cronista, o Pina dramaturgo, o Pina jornalista, até o Pina ele-mesmo — aquele que, afinal, mais falta faz ao grupo que se congregava nesse templo da amizade que era o Convívio para «contar histórias estúpidas e rir estupidamente». Álvaro Magalhães referiu-se ainda ao Pina publicitário, provavelmente o mais ignoto dos Pinas. Relatou um anúncio imaginado há muitos anos por MAP que acabaria por dar em coisa nenhuma porque o cliente — a Ecco, empresa de calçado — acabou, muito sensatamente, por o recusar. Achei graça à historieta, e ela revela, de facto, a graça — o wit — que havia e há em MAP. Conto o anúncio tal como o recordo hoje, uma semana depois. Prontos? Cá vai.
Um grupo de peregrinos arrasta-se penosamente pela Estrada Nacional n.º 1 até Fátima. Os pés dos caminhantes metem dó: bolhas, feridas, ligaduras ensanguentadas. Há gente que geme, ou que faz esgares de dor. A dado momento, os penitentes são airosamente ultrapassados por um outro peregrino, que se isola do pelotão cabisbaixo. A criaturinha caminha como se deslizasse, como se andasse um palmo acima do chão: nos pés, um magnífico par de sapatos Ecco. A marcha é interrompida por Nossa Senhora, que aparece no cocuruto de uma azinheira. De sobrolho franzido, admoesta o olímpico peregrino: «Assim, não vale. Com sapatos Ecco, não é sacrifício!»

* Manuel António Pina, «Uma forma de resistência», in Crónica, Saudade da Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 302.

21 novembro 2017

Benjamim, o homem do Sul

O pé do Benjamim, que caminha na nossa direcção, vindo de um qualquer lugar do Sul.

Escolhi o nome do meu filho sem pensar no seu significado etimológico. A decisão foi instantânea: se for menino, vai chamar-se Benjamim. Só depois tivemos curiosidade em saber o que significa: Benjamim quer dizer filho da felicidade. Do aparato crítico de uma edição da Bíblia consta, todavia, um outro significado: etimologicamente, Benjamim significa homem do Sul. Sem que saiba dizer porquê, esta significação pareceu-me logo ainda mais bonita — e muito mais misteriosa — do que aquela que correntemente se atribui ao nome. O Benjamim vem de longe, de muito longe, e com ele chegará também algum calor e alguma luz que só encontramos em paragens meridionais. Porque talvez só nos dias longos e quentes do Sul se possa dizer o que a personagem de Karen diz a Denys em África Minha: «Digas o que disseres agora, eu acredito.»

19 novembro 2017

Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (3)

O meu amigo de Zebreiros estudou na Universidade de Coimbra, depois na Universidade do Porto e novamente na Universidade de Coimbra. Não chegou a formar-se. Anos depois de abandonar definitivamente a vida académica, encontrou um dos seus professores de Direito:
— Que pena você não ter concluído a licenciatura, e logo por duas cadeiras!
— Senhor professor, não são essas duas cadeiras que eu lamento, mas as vinte que fiz.

Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (2)

Contou-me o meu amigo de Zebreiros que o filho, quando era pequeno, lhe perguntava: «Pai, porque é que só tiveste um filho?» Ele respondia, invariavelmente: «Porque não pude ter meio.»

Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (1)


Na lapela do blazer, o meu amigo de Zebreiros trazia um pin com um redondíssimo número: 100. Perguntei-lhe o que significava aquilo: uma efeméride? «São os 100 anos da Revolução de Outubro, os 100 anos do Rancho Folclórico de Zebreiros e os 100 anos da Leica. Decida você.»

18 novembro 2017

O meu amigo de Zebreiros

O meu amigo de Zebreiros é um homem raro e inclassificável, sobre o qual terei forçosamente de escrever um destes dias, para ver se compreendo. Um conversador extraordinário e um impagável contador de histórias, mas também um misantropo: recordo-me de almoços em que mal trocámos uma palavra. Homem de uma cultura literária, religiosa, artística e filosófica incompreensível na era das selfies, das redes sociais e das séries da HBO, é também capaz de demonstrar enfado por uma importante novidade editorial ou de se exasperar, como um filisteu, com as coisas da cultura: «Lá vai você pôr-se na bicha dos inteligentes», atirou-me certa vez, quando me preparava para ir a uma conferência de Peter Sloterdijk em Serralves. Pode ser de uma cortesia imensa, de uma amabilidade quase anacrónica, mas mostrar-se também agreste e ter reacções desagradáveis. É um escritor acabado, mas dele só conheço cartas — e notas sem texto. Foi publicitário na década de 60 ou de 70, mas também olivicultor em Trás-os-Montes. Em algumas ocasiões, pode ser visto na tribuna do Teatro São João, no lugar D8. É um parente do Senhor Keuner, personagem enigmática e algo insolente de Brecht, mas o seu ex-libris — carimbado na folha de rosto dos milhares de livros da sua biblioteca — é um verso de Celan: Schwerer werden. Leichter sein. [«Ficar mais pesado. Ser mais leve.»] A história da nossa amizade, que começou no ano 2000, é algo acidentada: tivemos momentos de intensa proximidade, tempos em que nos encontrávamos duas, três ou quatro vezes por semana, mas também alturas de uma distância injustificável, meses sem um telefonema sequer. Devo-lhe mais do que estou, neste momento, em condições de admitir. Nesta sexta-feira, encontrámo-nos novamente para almoçar, depois de uma temporada de silêncio. Entre outras coisas, falámos de criaturas que tiram selfies com largos sorrisos à frente dos quadros de Bosch e de helenistas que caminham e discorrem como se lavassem as partes íntimas com água vinda directamente da fonte oracular de Castália, em Delfos.

12 novembro 2017

Música e letra

Chet Baker fotografado por Herman Leonard (Nova Iorque, 1956)  

Em vez de enfrentar as tarefas urgentes que tenho diante de mim, voltei a dissipar o meu tempo livre em duas ociosas actividades: decorar texto (acabo de empinar os 24 versículos do assombroso Salmo 139) e tocar — muito sofrivelmente — piano (escuso-me a divulgar o castigado repertório). Coisinhas que talvez adiem dois ou três dias o Alzheimer, mas ignoro que proveito imediato me possam trazer, sobretudo porque não faço planos de exibir fora do agregado familiar o meu talento de diseur e ainda menos o meu virtuosismo lisztiano. Em todo o caso, a combinação destas duas recreativas ocupações trouxe-me agora à memória uma das histórias de Chet Baker, esse anjo por quem a droga se apaixonou, pedindo-lhe os dentes em troca. Conta-se que, em certa ocasião, o trompetista executava um solo quando, inexplicavelmente, estacou, permanecendo absorto por um bom bocado. Os restantes músicos continuaram, desamparadamente, sem a participação do trompete. No final, perguntaram a Chet por que parara de tocar. «Esqueci-me da letra», foi a sua resposta.

09 novembro 2017

Dois amores

Um amigo meu tem um gato a que deu o nome Estaline. Descobri hoje que o apelido da mulher é Espírito Santo.

07 novembro 2017

Perdoar o funcionário público mais próximo

 C.S. Lewis em 1950, fotografado para a Vogue por Norman Parkinson

O perdão é um escândalo. Quer dizer, uma pedra em que a nossa racionalidade tropeça uma e outra vez. Um escritor napolitano chamado Erri De Luca diz que o perdão é um dos dois obstáculos que o impedem de crer. O outro é a oração, esse ímpeto que leva o crente a dirigir-se a Deus como ‘tu’. Erri De Luca só pode falar de Deus na terceira pessoa. Este alpinista e activista — entre outras coisas, trabalhou cinco anos como motorista nas colunas de ajuda humanitária na Bósnia — aprendeu o hebraico sozinho, começou a traduzir livros da Bíblia e todas as manhãs lê uma porção das Escrituras: um punhado de palavras duras que o acompanham ao longo do dia, «um caroço de azeitona para andar a girar na boca». Mas o imperdoável é uma fronteira que não está em condições de atravessar, isto é, abolir: «Não sei perdoar e não posso admitir ser perdoado.» De um certo ponto de vista, Erri De Luca está na posição inversa de C.S. Lewis, que se autodefiniu como the most dejected and reluctant convert in all England: Lewis não queria crer, mas é arrastado para dentro; De Luca desejaria crer, mas é mantido à distância. Também Lewis, contudo, reconheceu o carácter problemático do perdão: «É um belíssimo ideal, até termos alguma coisa para perdoar.» Então, torna-se uma afronta para o espírito, uma hipocrisia repugnante, para além de uma fantasiosa impossibilidade. O perdão é uma blasfémia para a nossa razão, ou para o nosso amor-próprio, ou para o nosso sentido de justiça. Um livro como The Sunflower — em que um muito impressivo episódio vivido por Simon Wiesenthal com um oficial nazi moribundo dá ensejo a um inquérito sobre «as possibilidades e os limites do perdão», no qual tomam parte 53 pessoas, entre teólogos, rabinos, políticos, juristas, psiquiatras, escritores, para além de sobreviventes do Holocausto e outros genocídios e até de um ex-nazi como Albert Speer — ilustra bem o nó cego de problemas que o perdão parece colocar. Mas, como argumenta Lewis, não temos de começar por perdoar os torcionários nazis (ou mesmo por perdoar pedófilos e incendiários), assim como aquele que aprende matemática não começa por álgebra linear: perdoar «o funcionário público mais próximo» por aquilo que nos fez na semana passada, diz, pode manter-nos entretidos algum tempo. É evidente que C.S. Lewis não viveu o bastante para conhecer os melhoramentos introduzidos na administração pública pelos vários programas Simplex. Provavelmente, teremos de começar por alguém que esteja, de facto, ao nosso lado. Melhor ainda: podemos começar por nós próprios.

O indesculpável

O objecto do perdão é o indesculpável. O que é desculpável só requer uma boa explicação.

04 novembro 2017

Desculpar é humano, perdoar é divino

Há duas semanas, o país parecia estar em suspenso, aguardando um pedido de desculpa que tardava. «Já está em condições de pedir desculpa a todo o país?», questionou um tribuno na casa da democracia. A resposta do primeiro-ministro veio na forma de uma oração subordinada adverbial condicional: «Se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas.» Não me demorei um minuto na questão da pertinência, da oportunidade ou sequer da utilidade de um tal pedido. Como frequentemente acontece, a minha atenção desviou-se para um aspecto irrisório do problema; neste caso, um detalhe linguístico. Na ocasião, perguntei-me se o que estava em causa era um pedido de desculpas ou um pedido de perdão. A dúvida agravou-se desde então, talvez porque, nos últimos tempos, me tenho confrontado repetidamente com a necessidade de decidir: peço desculpa ou peço perdão? Não se trata de uma dúvida gramatical ou estilística, do género: devo escrever ‘eu mesmo’ ou ‘eu próprio’? ‘Pedir perdão’ não é uma versão mais enfática e teatral de ‘pedir desculpa’. Na verdade, trata-se de coisas distintas. Em certo sentido, de coisas opostas. (Aprendi isto com a teologia e a apologética, essas criaturinhas pequenas e feias que não podem ser vistas à luz do dia.*) Porque o que amiúde está em jogo num pedido de desculpas é, na verdade, a mobilização de ‘circunstâncias atenuantes’ da culpa: não tive essa intenção, não pude evitá-lo, estava cheiinho de nervos, dormi pouco, fui provocado, etc. Um pouco como fez agora Kevin Spacey, que, confrontado com acusações de assédio sexual, pediu desculpas por um deeply inappropriate drunken behaviour. (Uma desculpa quase tão esfarrapada quanto a de uma desarranjada canção de Tom Waits: The piano has been drinking, not me…) Pedir perdão implica antes o reconhecimento de que há uma parcela de culpa irredutível a todas as desculpas. Nesse momento, o nosso afã autojustificativo revela-se, além de maçador, supérfluo: uma perda de tempo, uma sementeira no deserto. Só podemos então confiar-nos ao perdão, e isso pode ser angustiante, mas também libertador.

* Refiro-me ao livro The Weight of Glory, de C.S. Lewis.

01 novembro 2017

Maçãs tocadas e citações eruditas

Shapiro conhecia todos os géneros de literatura e lia todas as publicações; tinha contactos com livreiros de todo o mundo. [...] Mas o pai de Shapiro nunca tivera um cêntimo e vendia maçãs podres em South Water Street num carrinho. Havia mais verdade sobre a vida naquelas maçãs tocadas e estragadas, e no velho Shapiro, que cheirava a cavalo e a produtos agrícolas, do que em todas as citações eruditas do filho.
Saul Bellow — Herzog

31 outubro 2017

Que diabo podemos fazer senão citar?

No dia em que se celebram os 500 anos da afixação das 95 teses de Lutero na porta da igreja de Wittenberg, ocupo-me com uma ociosa bizantinice: a natureza diabólica da citação. (Suponho que seja contra estas «genealogias e fantasias intermináveis» que o apóstolo Paulo adverte o jovem presbítero Timóteo...) A perplexidade de um dos raros hóspedes aladosaka leitores — deste blogue em relação ao post anterior dá-me o ensejo para prolongar tão edificante assunto.
O diabo é não só um citador como ele próprio é, de um certo ponto de vista, uma corruptela: uma citação truncada de Deus. (Alguma literatura mostra-nos o diabo como uma espécie de macaquinho de imitação de Deus e alguns teólogos defendem que todo o vício é, no fundo, uma virtude deturpada.) O que escrevi na publicação anterior dizia talvez menos respeito à teologia do que à etimologia, resumindo-se no seguinte: toda a citação é, em si mesma, diabólica porque divide e duplica. A incompreensão que me foi manifestada prendia-se, todavia, com um ponto específico da argumentação: por que razão a citação, ainda que exacta, produz o esquecimento da origem? O que a citação faz não é precisamente o contrário: apontar para ela, reconduzindo-nos ao texto de que foi extraída e ao autor que a proferiu? Explico-me, recorrendo à cobardia do exemplo.
Por toda a parte se debita um determinado passo de Samuel Beckett, passo que está, aliás, em vias de se tornar uma atroz banalidade: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.» Poucos sabem que pertence a um dos últimos trabalhos de Beckett, intitulado Worstward ho (há uns anos, Miguel Esteves Cardoso traduziu-o como Pioravante Marche), e menos ainda o terão lido. Se o fizessem, mostrar-se-iam certamente menos prontos a citar essa passagem como quem invoca uma máxima motivacional numa sessão para jovens empreendedores. Por que não também citar estoutro passo: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Melhor outra vez. Ou melhor pior. Falhar pior outra vez. Ainda pior outra vez. Até fartar de vez. Vomitar de vez. Partir de vez.»? Um exemplo pessoano, ainda: «Minha pátria é a língua portuguesa.» Faz agora dez anos, nos ensaios de mesa de Turismo Infinito, António M. Feijó dizia-nos que não há «político de helicóptero» que não cite esta passagem do Livro do Desassossego, fazendo-nos crer que diz uma coisa que não diz. Mas, uma vez restituída a frase ao seu contexto original, ela adquire um sentido imprevisto e inteiramente diverso daquele com que é tão enfaticamente citada: «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.»
Nestes dois casos, a citação parece precisamente redundar no esquecimento do texto, não apenas porque o dispensa, mas porque corrompe ou rasura aquele que é o sentido originário. Daí o seu carácter diabólico porque, teologicamente, o diabo é não só o corruptor da alma, mas também aquele que visa o apagamento de uma imagem e semelhança original, isto é, divina (Génesis 1:26). Não deixa, contudo, de ser paradoxal — e de causar um certo embaraço — que para demonstrar o carácter diabólico da citação precisemos, desgraçadamente, de recorrer a citações. Mas que diabo podemos fazer senão citar?

30 outubro 2017

Coisas do diabo

Toda a citação é diabólica. Não apenas a citação truncada, a citação que corrompe o texto, a citação que mente. O diabo não é somente mentiroso, caluniador, má-língua. O grego diábolos significa também aquele que separa, aquele que divide. (Daí que toda a máquina de divisão ou duplicação, como o espelho e a fotografia, tenha sido historicamente tomada como demoníaca.) Ao citarmos, ainda que com académico escrúpulo — ou sobretudo com académico escrúpulo —, manifestamos uma vocação diabólica porque a citação opera uma excisão, separando uma proposição do discurso que lhe deu origem e sentido. Tal divisão é efectiva, e redunda virtualmente no esquecimento do próprio texto em que a frase citada ocorre. Um teólogo católico a que voltei este Verão, o sentimental Henri Nouwen, diz que o desígnio do diabo é precisamente o de produzir um esquecimento em nós: o esquecimento de uma origem. Isto parece-me igualmente válido para a citação.

26 outubro 2017

O demónio, esse citador

Satan addressing his potentates (ca. 1816-1818), de William Blake

Ouvi na televisão que um juiz desembargador do Porto citou a Bíblia para justificar as agressões de um marido traído (e — terei ouvido bem? — de um ex-amante) a uma «mulher adúltera». Isto nada prova contra a Escritura, e não chega sequer a agravar a sua fama. (O nosso Nobel da Literatura estimara-a já como um «manual de maus costumes».) Não esqueçamos que o próprio diabo cita o texto sagrado. É o que sucede no episódio das tentações de Jesus no deserto, quando o demónio cita escrupulosamente o Salmo 91. É, aliás, este episódio dos Evangelhos que António, esse cristão tão caridoso, tem em mente ao advertir Bassânio contra o judeu Shylock, que habilidosamente lançara mão de uma narrativa veterotestamentária sobre Jacob e o sogro deste, Labão:

     O diabo cita a Escritura p’ra seu propósito.
     A alma vil gerando testemunho santo
     É como um vilão pondo no rosto um sorriso,
     Maçã de bom aspecto podre no seu âmago.
     William Shakespeare — O Mercador de Veneza (trad. Daniel Jonas)

O demónio é um citador. Tem sempre na ponta da língua um versículo bíblico adequado à circunstância. Nos acampamentos de Verão evangélicos, arrebataria o primeiro prémio nessa modalidade olímpica ainda não reconhecida que dá pelo nome de destreza bíblica. Vladimir Soloviev — poeta e filósofo russo da segunda metade do séc. XIX que se tornou especialmente próximo de Dostoievski — vai mais longe ainda: numa novela, figura o Anticristo a ser distinguido com o doutoramento honoris causa em Teologia Bíblica pela Universidade de Tübingen. Evidentemente, demonizar o juiz desembargador seria não apenas excessivo como inteiramente inadequado, pois outorgaria à obtusidade e ao cretinismo um glamour que só ao Satanás de Milton e Blake é devido. Em todo o caso, sempre que me dizem que alguém citou a Bíblia, estremeço. Eu próprio cito amiúde a Escritura, o que talvez devesse pôr em guarda aqueles que comigo ainda admitem conviver.

20 outubro 2017

Tempos difíceis*

Hesitei longamente em escrever aqui sobre os acontecimentos de domingo. Seria deplorável usar o sofrimento, a agonia e a devastação para exercícios de estilo. Porém, de que outra coisa se pode falar sem que o silêncio sobre o dia 15 de Outubro pareça — ou seja, de facto — um sinal de indiferença face ao horror? Lembro-me de um punhado de versos de Brecht: «Que tempos são estes, em que/ Uma conversa sobre árvores é quase um crime/ Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?» Curiosamente, B.B. reincidiu muitas vezes nesse crime, e estamos-lhe gratos por isso. Quando os mais terríveis acontecimentos dilaceravam a Europa, dedicou alguns dos seus mais belos textos a árvores: abetos que de manhãzinha são cor de cobre, macieiras em flor, as bagas negras de um sabugueiro da infância, uma ameixeira que nunca deu uma ameixa. Há mesmo um poema que ensina a trepar às árvores: «Esperai pela noite entre a folhagem...» Dá-se agora que falar sobre a monstruosidade do passado domingo implica também conversar sobre árvores. Condescendam que o faça, reconhecendo que não é a face mais terrível do desastre: perderam-se vidas, e muitos viram-se depredados não apenas de tudo quanto possuíam, mas também daqueles que amavam.
Neste dia 15, desapareceu um dos lugares mais importantes para a Abigail e para mim: as matas da zona da Marinha Grande e de São Pedro de Moel, matas que fazem parte do Pinhal de Leiria, e nas quais, em criança, a Abigail passou muitas tardes de domingo com os pais e as irmãs. Ao longo destes vinte anos juntos, visitámos em diversas ocasiões esse lugar. Tomo agora consciência de que não o fazíamos há muito tempo, mas lembro-me bem de que, num certo período, quando íamos a Leiria, sobrepesávamos o carro – na época, um VW Polo de apenas 999 cc – com uma inusitada quantidade de garrafões que enchíamos nas fontes de água dessas matas. Foi, aliás, por ali que nos conhecemos, num local chamado Água de Madeiros, corria o ano da Graça de 1995. Não possuo o virtuosismo que me habilitaria a descrever essas matas com propriedade. Percorrendo-as a pé ou mesmo de carro, era possível sentir o poder do lugar, o modo como, a cada curva, surgiam maciços de árvores, clareiras, miradouros, perspectivas. Não era apenas essa qualidade fotográfica que fazia a beleza do lugar. Foi ainda todo um luxuriante património de sons e cheiros que desapareceu de modo irreparável no passado domingo. Aquele era também um sítio onde — com ganho — podíamos permanecer de olhos fechados. O pequeno Benjamim que aí vem não irá já conhecer esse lugar como a mãe, em criança, o conheceu — e isso encheu-me de uma tristeza difícil de vencer. É também como diz um verso de Brecht: os incêndios precederam o filho. Não iremos dormitar sob um tecto de folhagem densa num dia de Sol, tendo o restolhar das árvores por banda sonora, nem caminhar por ali fazendo estalar os gravetos sob os nossos pés. De facto, é como reza o apólogo de Hegel: É só na escuridão que a coruja de Minerva inicia o seu voo. Quer dizer: apenas quando alguma coisa se perde de modo irreparável nos tornamos aptos a fazer-lhe justiça.

* Título de um dos poemas de Brecht sobre árvores. A propósito deste poema, Roberto Calasso escreve que «nenhuma denúncia explícita dos males do mundo possui a intensidade destes poucos versos indirectos e reticentes».

18 outubro 2017

«La commedia è finita.»

«A palavra tragédia é uma palavra preciosa.»* Converteu-se em moeda corrente, empregamo-la para todo o despropósito. Mas confiamos nela — ou confiamo-nos a ela — quando sentimos a necessidade de conferir algum valor, alguma dignidade à catástrofe, ao infortúnio, à devastação. Quando a usamos, queremos dizer: este sofrimento é excepcional. Na edição de ontem do jornal Público — a edição que exibia na capa a fotografia de Adriano Miranda que abusivamente postei aqui —, a palavra tragédia ocorria 17 vezes. (Não contabilizei a ocorrência do adjectivo trágico/trágica.) Mas ocorria também, uma única vez, a palavra comédia. Figurava na última página do jornal, no título da crónica que João Miguel Tavares escreveu sobre o cataclismo deste domingo: «Uma comédia chamada Estado português». A palavra não voltava a aparecer no corpo do texto (embora o termo tragédia sim) e o título não era propriamente explicado, embora chegássemos lá facilmente. Não vou pronunciar-me sobre o teor do artigo, não é isso que me interessa. A mim — que esta manhã tive de falar aos meus alunos sobre os conceitos de tragédia e comédia na Antiguidade clássica —, chamou-me a atenção que um jornal enxameado pela palavra tragédia terminasse, ironicamente, com a palavra comédia. Quem visse diante de si, no café ou no metro, alguém a segurar o jornal aberto, poderia ler, à direita, a manchete «Quatro meses, mais de 100 mortos» encimada pelo grande plano de um velho radicalmente só num cenário de desolação e, logo ao lado, um título com a mais inesperada das palavras: comédia. É tudo uma questão de perspectiva, como sugere a máxima de Chaplin: Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot? Numa ópera intitulada Os Palhaços, o que é cómico no palco revela-se trágico na vida: La commedia è finita.

* Adrian Poole, Tragedy: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2005.

17 outubro 2017

Mostrar ao mundo

Foto de Adriano Miranda publicada na capa da edição de hoje do Público

Sou como o que trazia um tijolo consigo
Pra mostrar ao mundo como era a sua morada.
Bertolt Brecht — Poemas do Exílio

13 outubro 2017

Uma ária na flauta

Na aula de ontem, despendi os melhores esforços a explicar aos meus alunos por que razão eles devem ler os clássicos. Por vezes, este argumentário redunda numa atitude catequética algo rançosa – lemos os clássicos para compreender quem somos – ou em enfáticas sublimidades à la George Steiner: os clássicos contêm a gramática do humano. Sucede que nenhum dos argumentos que podemos invocar supera — em verdade — aquele que subjaz a esta historieta relatada (ou efabulada) por Cioran: «Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. “Para que te servirá?”, perguntaram-lhe. “Para saber esta ária antes de morrer.”» Perdemos tempo a esgrimir argumentos: como diz Macbeth, a nossa espada grava em falso. Devemos ler os clássicos porque, conforme conclui Calvino, é melhor lê-los do que não os ler.

12 outubro 2017

O grande ausente

O Pelicano, de Strindberg, encenação Manuel Tur | foto João Tuna

Em vez da «sala de visitas» prevista por Strindberg, a cena figura um imenso espelho em estilhaços. As personagens de O Pelicano ferem-se, dilaceram-se, mas não sangram. Sofrem hemorragias internas. O sangue é metafórico: «Tal como o pelicano, que com o seu próprio sangue alimenta os filhos…» O Padre António Vieira chamava ao espelho diabo mudo. Este espelho quebrou-se de modo irreparável – e agora o demónio desatou a falar.
Não nos é dado assistir ao estilhaçamento: o que o provocou? A morte do Pai, que veio quebrar o polido continuum da vida familiar. Embora nunca compareça como fantasma – não é visível nem ao espectador nem a qualquer das personagens –, o Pai está sempre presente: na chaise longue em que «soltou o último suspiro» e que agora a Mãe se vê forçada a adoptar como cama; na cadeira de baloiço em que costumava instalar-se e que se move várias vezes ao longo da representação, aterrorizando a Mãe. Não podemos imputar essa movimentação a causas sobrenaturais; as didascálias de Strindberg fornecem explicações razoáveis. Mas o Pai revela-se o medium da verdade: é através de uma carta póstuma, de uma carta que chega da morte, que os filhos despertam do sono (essa «morte contrafeita», como se diz no Macbeth) e acedem à verdade sobre a vida. Fredrik descreve-o nos termos de uma aparição: «A Gerda e eu fomos visitados por uma alma do outro mundo.» Num ensaio que dedica a um descendente de Strindberg – Eugene O’Neill –, Jean-Pierre Sarrazac faz notar: «No teatro, é preciso procurar o ausente, o Grande Ausente, aquele que, a partir de um limiar de invisibilidade, orienta o drama.» Ao longo de toda a peça, a Mãe toma-se pelo pelicano, mas no final perceberemos que a personagem titular não chega sequer a entrar em cena: «Ele, afinal, é que era o pelicano.»

Excerto de um texto publicado no programa de sala de Retrato de Família (Teatro Nacional São João, 2017). O Pelicano estreia hoje no Teatro Carlos Alberto e mantém-se em cena até ao dia 21 de Outubro.

09 outubro 2017

Morrer acima das minhas possibilidades

Reflexão dominical. «Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades.» Durante os anos em que vigorou o Programa de Assistência Económico-Financeira, vivemos sob este refrão mortificante como um cilício. Lembrei-me dele por estes dias, ao assistir a um directo televisivo do lamentoso Conselho Nacional em que Pedro Passos Coelho anunciou a sua despedida da liderança de um partido em tempos conhecido como PSD. A sentença — porque de uma sentença se tratava, de facto — é-lhe frequentemente atribuída, mas nesses anos de 2011 e 2012 era um credo fervorosamente partilhado (e metralhado) por uma caterva de insignes figuras: o Presidente da República de então, economistas e conselheiros de Estado, para além dos diáconos da Opinião, essa religião babilónica. A asserção — uma elementaríssima manifestação de sensatez — tornou-se-nos odiosa e é hoje apenas proferida com escarninha ironia. Talvez haja nela algo de efectivamente medíocre, como viu Oscar Wilde: Anyone who lives within their means suffers from a lack of imagination. (Até para gastar dinheiro é preciso talento.) Não é, contudo, esta máxima de Wilde que tanto me apraz opor ao judicioso e maçador «Não podemos viver acima das nossas possibilidades», mas uma formulação que estimo muito, embora por razões que não estariam no espírito do autor. Conta-se que, ao agonizar, Oscar Wilde terá pedido champagne (o que também Tchékhov terá feito), declarando: «Morro acima das minhas possibilidades!» Ora, é precisamente isso que todo o protestante espera. Na hora da morte, estarei de mãos vazias — nenhum feito, nenhuma boa obra, nenhum mérito, nenhum bem, nada para apresentar em meu favor. E, no entanto, espero receber tudo: tudo a que não tenho direito. Morrerei, enfim, acima das minhas possibilidades. São Paulo, Agostinho, Lutero e muitos outros chamaram a isso Graça. É como diz o Salmo 23: O meu copo transborda.

08 outubro 2017

Abre-latas

Gosta que os amigos partilhem com ele as suas dúvidas existenciais. Está sempre pronto a fornecer conselhos matrimoniais e a perorar sobre o pós-humano. Mas não lhe peçam que explique como funciona o abre-latas.

07 outubro 2017

A prova que Deus nos deu da existência do Inferno

foto Diana Lopes

O meu bom amigo Manuel Tur está a preparar no Teatro Carlos Alberto um díptico teatral sobre a família: O Pelicano, de Strindberg, a que segue, dias depois, Tatuagem, de Dea Loher. A tirada de um teólogo que muito prezo poderia servir de slogan à campanha de divulgação: «A família é a prova que Deus nos deu de que existe uma coisa chamada Inferno.» Infelizmente, os marketeers não lêem teologia.

06 outubro 2017

Uma espécie de inocência

Ele não tinha carácter. Não é que tivesse mau carácter. Simplesmente, nele o carácter não chegara a formar-se.

04 outubro 2017

Those who can’t teach, teach gym

Conheci hoje os meus novos alunos do curso de Artes Dramáticas. Há um ano, quando comecei a leccionar uma disciplina nesta licenciatura, dizia aos alunos de então que há uma única diferença entre o professor e o aluno: o professor prepara-se. É como se, a cada aula, o mestre levasse uma volta de adianto em relação aos seus discípulos e, no momento em que estes estão prestes a alcançá-lo, aquele precisasse de estugar o passo para assegurar a distância que é imposta pelo protocolo pedagógico. Agora, voltei a baixar a fasquia das expectativas, limitando-me a citar Alvy Singer, o protagonista de Annie Hall: «Quem não sabe fazer, ensina. E quem não sabe ensinar, ensina ginástica.» Onde se lê ‘ginástica’ também pode ler-se ‘literatura dramática’.

30 setembro 2017

Cultura, ou como lhe queiram chamar

Karl Kraus: disfarçado de satirista, um canibal entrou na civilização.

Dia de reflexão. O grande acontecimento das Autárquicas 2017 será — sub conditione Jacobaea — a eleição do meu irmão gémeo como Vereador da Cultura do município de Viseu. (O livro de estilo da Mosca dispensaria a caixa alta em ‘vereador’, mas admitamo-la a título excepcional.) Ignoro que predicados se exigem a um vereador que detenha este pelouro, mas há pelo menos uma coisa para a qual o meu gémeo precisa de estar preparado: enunciar uma definição de cultura. Quando um petiz do ensino primário do Mundão ou de Cavernães perguntar «Senhor Vereador, o que é a cultura?», não cairia bem responder: «Sei o que é, mas não sou capaz de explicar.» (Ou, como o Professor d’A Lição, de Ionesco: «Ui, isso levar-nos muito loooooooooonge!») De facto, não é tarefa fácil porque o conceito é volúvel e assaz elástico, abrangendo uma multiplicidade de fenómenos: da Divina Comédia e dos concertos de Bartók às boas maneiras e ao saneamento básico, passando pelos inefáveis ‘saberes e sabores’. Há definições que se tornaram tão clássicas que são já atribuídas a diversas personalidades. É o caso da seguinte: «Cultura é o que permanece quando se esqueceu tudo o que se aprendeu.» É uma definição interessante porque propõe uma demarcação entre cultura e informação, entre cultura e essa coisa repugnante como um mictório público que é a cultura geral. A minha definição preferida de cultura pertence, todavia, ao satirista vienense Karl Kraus, o autor d’Os Últimos Dias da Humanidade. Talvez o meu mano queira citá-la no seu primeiro discurso oficial. Reza assim: «Cultura é a muleta com que o coxo bate no são para mostrar que também a ele não faltam as forças.» (Pois, convém voltar atrás e ler outra vez.)

29 setembro 2017

«A força de um poema, quer dizer, de um crime»

Os Negros, de Jean Genet, enc. Rogério de Carvalho (TNSJ, 2006); foto João Tuna

É bem conhecida a imagem milenar de Heraclito: não nos banhamos duas vezes nas mesmas águas de um rio. Não é apenas a água que muda. Como insistia Jorge Luis Borges, nós não somos menos fluidos do que o rio. De cada vez que lemos um texto, o texto não é o mesmo. Não porque seja mudável como o livro de areia de um conto de Borges, mas porque nós não somos mais os mesmos. Talvez não exista essa coisa a que chamamos reler: ler é sempre ler pela primeira vez. (Por alguma razão, assinalamos passagens diferentes de cada vez que lemos uma obra, e frequentemente, quando voltamos a um livro há muito lido, não somos mais capazes de discernir o motivo que nos levou a sublinhar este ou aquele passo.)
Em 2017, Rogério de Carvalho lê pela primeira vez Os Negros, depois de ter lido a peça há mais de trinta anos, quando encenou esta macabra clownerie no Teatro do Século, com um elenco constituído por actores brancos, pervertendo a regra e a ordem de Saint Genet, para citar o título do famigerado estudo de Sartre. O encenador leu-a também em 2006 no palco do Teatro Nacional São João, em condições de produção radicalmente distintas e com um elenco que agregava actores de «um belo negro lustroso»: angolanos, moçambicanos, um são-tomense, uma cabo-verdiana e portugueses de ascendência africana. Entre a primeira encenação e a derradeira — aquela que agora se apresenta aos espectadores do São Luiz (5-15 de Outubro) —, não há progresso. Quer dizer: as três encenações não representam necessariamente estádios de uma evolução, etapas da decifração progressiva de um enigma, mas formas distintas de organizar o escândalo, o jogo, a cerimónia, o delírio, a possessão. Sabe-se agora mais, mas é preciso aprender tudo de novo. Com textos como Os Negros — textos que possuem «a força de um poema, quer dizer, de um crime» (Genet) — nunca se volta a casa, mas a um lugar onde se permanece um estranho. O texto já não é o mesmo que Rogério de Carvalho leu há trinta, ou mesmo há dez anos. O leitor não é o mesmo. Nós, espectadores, não somos os mesmos.

Excerto de «Missa en abyme», texto escrito para a folha de sala de Os Negros, de Jean Genet, enc. Rogério de Carvalho (São Luiz Teatro Municipal, Outubro de 2017). Agradeço a Aida Tavares mais este amabilíssimo convite.