Não sou dos que blasfemam de Deus por ele ter criado as moscas.
Teixeira de Pascoaes — O Penitente (Camilo Castelo Branco)
26 novembro 2017
25 novembro 2017
Os milagres de Manuel António Pina
Manuel António Pina ilustrado pela Abigail Ascenso (A Noite, Assírio & Alvim, 2017)
Decepcionado com os «conceitos e coisas» em que acreditou e nos quais descobriu «um rosto sórdido», Manuel António Pina encontrou na amizade «a tão frágil e melancólica pedra […] em que ‘construirei a minha igreja’».* Essa igreja permanece de pé, e os fiéis não a abandonaram. No passado sábado, amigos do poeta — um grémio designado Clube dos Amigos à Espera do Pina, uma alusão chistosa à sua irremediável falta de pontualidade — assinalaram o 74º aniversário do nascimento de MAP no Teatro da Vilarinha. Estive presente porque, nesse encontro, foi apresentada a nova edição de A Noite, uma peça de teatro de MAP agora decorada pela Abigail (decorar: o coração é que sabe!), ilustrações que, como viu Álvaro Magalhães na ocasião, se revelam tão expressivas na sua obscura economia cromática. Álvaro Magalhães recordou os vários Pinas: o Pina poeta, o Pina cronista, o Pina dramaturgo, o Pina jornalista, até o Pina ele-mesmo — aquele que, afinal, mais falta faz ao grupo que se congregava nesse templo da amizade que era o Convívio para «contar histórias estúpidas e rir estupidamente». Álvaro Magalhães referiu-se ainda ao Pina publicitário, provavelmente o mais ignoto dos Pinas. Relatou um anúncio imaginado há muitos anos por MAP que acabaria por dar em coisa nenhuma porque o cliente — a Ecco, empresa de calçado — acabou, muito sensatamente, por o recusar. Achei graça à historieta, e ela revela, de facto, a graça — o wit — que havia e há em MAP. Conto o anúncio tal como o recordo hoje, uma semana depois. Prontos? Cá vai.
Um grupo de peregrinos arrasta-se penosamente pela Estrada Nacional n.º 1 até Fátima. Os pés dos caminhantes metem dó: bolhas, feridas, ligaduras ensanguentadas. Há gente que geme, ou que faz esgares de dor. A dado momento, os penitentes são airosamente ultrapassados por um outro peregrino, que se isola do pelotão cabisbaixo. A criaturinha caminha como se deslizasse, como se andasse um palmo acima do chão: nos pés, um magnífico par de sapatos Ecco. A marcha é interrompida por Nossa Senhora, que aparece no cocuruto de uma azinheira. De sobrolho franzido, admoesta o olímpico peregrino: «Assim, não vale. Com sapatos Ecco, não é sacrifício!»
* Manuel António Pina, «Uma forma de resistência», in Crónica, Saudade da Poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 302.
21 novembro 2017
Benjamim, o homem do Sul
Escolhi o nome do meu filho sem pensar no seu significado etimológico. A decisão foi instantânea: se for menino, vai chamar-se Benjamim. Só depois tivemos curiosidade em saber o que significa: Benjamim quer dizer filho da felicidade. Do aparato crítico de uma edição da Bíblia consta, todavia, um outro significado: etimologicamente, Benjamim significa homem do Sul. Sem que saiba dizer porquê, esta significação pareceu-me logo ainda mais bonita — e muito mais misteriosa — do que aquela que correntemente se atribui ao nome. O Benjamim vem de longe, de muito longe, e com ele chegará também algum calor e alguma luz que só encontramos em paragens meridionais. Porque talvez só nos dias longos e quentes do Sul se possa dizer o que a personagem de Karen diz a Denys em África Minha: «Digas o que disseres agora, eu acredito.»
19 novembro 2017
Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (3)
O meu amigo de Zebreiros estudou na Universidade de Coimbra, depois na Universidade do Porto e novamente na Universidade de Coimbra. Não chegou a formar-se. Anos depois de abandonar definitivamente a vida académica, encontrou um dos seus professores de Direito:
— Que pena você não ter concluído a licenciatura, e logo por duas cadeiras!
— Senhor professor, não são essas duas cadeiras que eu lamento, mas as vinte que fiz.
— Que pena você não ter concluído a licenciatura, e logo por duas cadeiras!
— Senhor professor, não são essas duas cadeiras que eu lamento, mas as vinte que fiz.
Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (2)
Contou-me o meu amigo de Zebreiros que o filho, quando era pequeno, lhe perguntava: «Pai, porque é que só tiveste um filho?» Ele respondia, invariavelmente: «Porque não pude ter meio.»
Do almoço com o meu amigo de Zebreiros (1)
Na lapela do blazer, o meu amigo de Zebreiros trazia um pin com um redondíssimo número: 100. Perguntei-lhe o que significava aquilo: uma efeméride? «São os 100 anos da Revolução de Outubro, os 100 anos do Rancho Folclórico de Zebreiros e os 100 anos da Leica. Decida você.»
18 novembro 2017
O meu amigo de Zebreiros
O meu amigo de Zebreiros é um homem raro e inclassificável, sobre o qual terei forçosamente de escrever um destes dias, para ver se compreendo. Um conversador extraordinário e um impagável contador de histórias, mas também um misantropo: recordo-me de almoços em que mal trocámos uma palavra. Homem de uma cultura literária, religiosa, artística e filosófica incompreensível na era das selfies, das redes sociais e das séries da HBO, é também capaz de demonstrar enfado por uma importante novidade editorial ou de se exasperar, como um filisteu, com as coisas da cultura: «Lá vai você pôr-se na bicha dos inteligentes», atirou-me certa vez, quando me preparava para ir a uma conferência de Peter Sloterdijk em Serralves. Pode ser de uma cortesia imensa, de uma amabilidade quase anacrónica, mas mostrar-se também agreste e ter reacções desagradáveis. É um escritor acabado, mas dele só conheço cartas — e notas sem texto. Foi publicitário na década de 60 ou de 70, mas também olivicultor em Trás-os-Montes. Em algumas ocasiões, pode ser visto na tribuna do Teatro São João, no lugar D8. É um parente do Senhor Keuner, personagem enigmática e algo insolente de Brecht, mas o seu ex-libris — carimbado na folha de rosto dos milhares de livros da sua biblioteca — é um verso de Celan: Schwerer werden. Leichter sein. [«Ficar mais pesado. Ser mais leve.»] A história da nossa amizade, que começou no ano 2000, é algo acidentada: tivemos momentos de intensa proximidade, tempos em que nos encontrávamos duas, três ou quatro vezes por semana, mas também alturas de uma distância injustificável, meses sem um telefonema sequer. Devo-lhe mais do que estou, neste momento, em condições de admitir. Nesta sexta-feira, encontrámo-nos novamente para almoçar, depois de uma temporada de silêncio. Entre outras coisas, falámos de criaturas que tiram selfies com largos sorrisos à frente dos quadros de Bosch e de helenistas que caminham e discorrem como se lavassem as partes íntimas com água vinda directamente da fonte oracular de Castália, em Delfos.
13 novembro 2017
As though I had wings
Nem todos os anjos caem. Alguns estatelam-se.
12 novembro 2017
Música e letra
Chet Baker fotografado por Herman Leonard (Nova Iorque, 1956)
Em vez de enfrentar as tarefas urgentes que tenho diante de mim, voltei a dissipar o meu tempo livre em duas ociosas actividades: decorar texto (acabo de empinar os 24 versículos do assombroso Salmo 139) e tocar — muito sofrivelmente — piano (escuso-me a divulgar o castigado repertório). Coisinhas que talvez adiem dois ou três dias o Alzheimer, mas ignoro que proveito imediato me possam trazer, sobretudo porque não faço planos de exibir fora do agregado familiar o meu talento de diseur e ainda menos o meu virtuosismo lisztiano. Em todo o caso, a combinação destas duas recreativas ocupações trouxe-me agora à memória uma das histórias de Chet Baker, esse anjo por quem a droga se apaixonou, pedindo-lhe os dentes em troca. Conta-se que, em certa ocasião, o trompetista executava um solo quando, inexplicavelmente, estacou, permanecendo absorto por um bom bocado. Os restantes músicos continuaram, desamparadamente, sem a participação do trompete. No final, perguntaram a Chet por que parara de tocar. «Esqueci-me da letra», foi a sua resposta.
09 novembro 2017
Dois amores
Um amigo meu tem um gato a que deu o nome Estaline. Descobri hoje que o apelido da mulher é Espírito Santo.
07 novembro 2017
Perdoar o funcionário público mais próximo
C.S. Lewis em 1950, fotografado para a Vogue por Norman Parkinson
O perdão é um escândalo. Quer dizer, uma pedra em que a nossa racionalidade tropeça uma e outra vez. Um escritor napolitano chamado Erri De Luca diz que o perdão é um dos dois obstáculos que o impedem de crer. O outro é a oração, esse ímpeto que leva o crente a dirigir-se a Deus como ‘tu’. Erri De Luca só pode falar de Deus na terceira pessoa. Este alpinista e activista — entre outras coisas, trabalhou cinco anos como motorista nas colunas de ajuda humanitária na Bósnia — aprendeu o hebraico sozinho, começou a traduzir livros da Bíblia e todas as manhãs lê uma porção das Escrituras: um punhado de palavras duras que o acompanham ao longo do dia, «um caroço de azeitona para andar a girar na boca». Mas o imperdoável é uma fronteira que não está em condições de atravessar, isto é, abolir: «Não sei perdoar e não posso admitir ser perdoado.» De um certo ponto de vista, Erri De Luca está na posição inversa de C.S. Lewis, que se autodefiniu como the most dejected and reluctant convert in all England: Lewis não queria crer, mas é arrastado para dentro; De Luca desejaria crer, mas é mantido à distância. Também Lewis, contudo, reconheceu o carácter problemático do perdão: «É um belíssimo ideal, até termos alguma coisa para perdoar.» Então, torna-se uma afronta para o espírito, uma hipocrisia repugnante, para além de uma fantasiosa impossibilidade. O perdão é uma blasfémia para a nossa razão, ou para o nosso amor-próprio, ou para o nosso sentido de justiça. Um livro como The Sunflower — em que um muito impressivo episódio vivido por Simon Wiesenthal com um oficial nazi moribundo dá ensejo a um inquérito sobre «as possibilidades e os limites do perdão», no qual tomam parte 53 pessoas, entre teólogos, rabinos, políticos, juristas, psiquiatras, escritores, para além de sobreviventes do Holocausto e outros genocídios e até de um ex-nazi como Albert Speer — ilustra bem o nó cego de problemas que o perdão parece colocar. Mas, como argumenta Lewis, não temos de começar por perdoar os torcionários nazis (ou mesmo por perdoar pedófilos e incendiários), assim como aquele que aprende matemática não começa por álgebra linear: perdoar «o funcionário público mais próximo» por aquilo que nos fez na semana passada, diz, pode manter-nos entretidos algum tempo. É evidente que C.S. Lewis não viveu o bastante para conhecer os melhoramentos introduzidos na administração pública pelos vários programas Simplex. Provavelmente, teremos de começar por alguém que esteja, de facto, ao nosso lado. Melhor ainda: podemos começar por nós próprios.
O indesculpável
O objecto do perdão é o indesculpável. O que é desculpável só requer uma boa explicação.
04 novembro 2017
Desculpar é humano, perdoar é divino
Há duas semanas, o país parecia estar em
suspenso, aguardando um pedido de desculpa que tardava. «Já está em condições de pedir
desculpa a todo o país?», questionou um tribuno na casa da democracia. A
resposta do primeiro-ministro veio na forma de uma oração subordinada adverbial
condicional: «Se quer ouvir-me pedir desculpas, eu peço desculpas.» Não me
demorei um minuto na questão da pertinência, da oportunidade ou sequer da
utilidade de um tal pedido. Como frequentemente acontece, a minha atenção
desviou-se para um aspecto irrisório do problema; neste caso, um detalhe
linguístico. Na ocasião, perguntei-me se o que estava em causa era um pedido de
desculpas ou um pedido de perdão. A dúvida agravou-se desde então, talvez
porque, nos últimos tempos, me tenho confrontado repetidamente com a
necessidade de decidir: peço desculpa ou peço perdão? Não se trata de uma
dúvida gramatical ou estilística, do género: devo escrever ‘eu mesmo’ ou ‘eu
próprio’? ‘Pedir perdão’ não é uma versão mais enfática e teatral de ‘pedir
desculpa’. Na verdade, trata-se de coisas distintas. Em certo sentido, de
coisas opostas. (Aprendi isto com a teologia e a apologética, essas
criaturinhas pequenas e feias que não podem ser vistas à luz do dia.*) Porque o
que amiúde está em jogo num pedido de desculpas é, na verdade, a mobilização de
‘circunstâncias atenuantes’ da culpa: não tive essa intenção, não pude evitá-lo,
estava cheiinho de nervos, dormi pouco, fui provocado, etc. Um pouco como
fez agora Kevin Spacey, que, confrontado com acusações de assédio sexual, pediu desculpas por um deeply inappropriate drunken behaviour. (Uma
desculpa quase tão esfarrapada quanto a de uma desarranjada canção de Tom
Waits: The piano has been drinking, not me…) Pedir perdão implica antes o
reconhecimento de que há uma parcela de culpa irredutível a todas as desculpas.
Nesse momento, o nosso afã autojustificativo revela-se, além de maçador,
supérfluo: uma perda de tempo, uma sementeira no deserto. Só podemos então
confiar-nos ao perdão, e isso pode ser angustiante, mas também libertador.
* Refiro-me ao livro The Weight of Glory, de C.S. Lewis.
01 novembro 2017
Maçãs tocadas e citações eruditas
Shapiro conhecia todos os géneros de literatura e lia todas as publicações; tinha contactos com livreiros de todo o mundo. [...] Mas o pai de Shapiro nunca tivera um cêntimo e vendia maçãs podres em South Water Street num carrinho. Havia mais verdade sobre a vida naquelas maçãs tocadas e estragadas, e no velho Shapiro, que cheirava a cavalo e a produtos agrícolas, do que em todas as citações eruditas do filho.
Saul Bellow — Herzog
Saul Bellow — Herzog
31 outubro 2017
Que diabo podemos fazer senão citar?
No dia em que se celebram os 500 anos da afixação das 95 teses de Lutero na porta da igreja de Wittenberg, ocupo-me com uma ociosa bizantinice: a natureza diabólica da citação. (Suponho que seja contra estas «genealogias e fantasias intermináveis» que o apóstolo Paulo adverte o jovem presbítero Timóteo...) A perplexidade de um dos raros hóspedes alados — aka leitores — deste blogue em relação ao post anterior dá-me o ensejo para prolongar tão edificante assunto.
O diabo é não só um citador como ele próprio é, de um certo ponto de vista, uma corruptela: uma citação truncada de Deus. (Alguma literatura mostra-nos o diabo como uma espécie de macaquinho de imitação de Deus e alguns teólogos defendem que todo o vício é, no fundo, uma virtude deturpada.) O que escrevi na publicação anterior dizia talvez menos respeito à teologia do que à etimologia, resumindo-se no seguinte: toda a citação é, em si mesma, diabólica porque divide e duplica. A incompreensão que me foi manifestada prendia-se, todavia, com um ponto específico da argumentação: por que razão a citação, ainda que exacta, produz o esquecimento da origem? O que a citação faz não é precisamente o contrário: apontar para ela, reconduzindo-nos ao texto de que foi extraída e ao autor que a proferiu? Explico-me, recorrendo à cobardia do exemplo.
Por toda a parte se debita um determinado passo de Samuel Beckett, passo que está, aliás, em vias de se tornar uma atroz banalidade: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.» Poucos sabem que pertence a um dos últimos trabalhos de Beckett, intitulado Worstward ho (há uns anos, Miguel Esteves Cardoso traduziu-o como Pioravante Marche), e menos ainda o terão lido. Se o fizessem, mostrar-se-iam certamente menos prontos a citar essa passagem como quem invoca uma máxima motivacional numa sessão para jovens empreendedores. Por que não também citar estoutro passo: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Melhor outra vez. Ou melhor pior. Falhar pior outra vez. Ainda pior outra vez. Até fartar de vez. Vomitar de vez. Partir de vez.»? Um exemplo pessoano, ainda: «Minha pátria é a língua portuguesa.» Faz agora dez anos, nos ensaios de mesa de Turismo Infinito, António M. Feijó dizia-nos que não há «político de helicóptero» que não cite esta passagem do Livro do Desassossego, fazendo-nos crer que diz uma coisa que não diz. Mas, uma vez restituída a frase ao seu contexto original, ela adquire um sentido imprevisto e inteiramente diverso daquele com que é tão enfaticamente citada: «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.»
Nestes dois casos, a citação parece precisamente redundar no esquecimento do texto, não apenas porque o dispensa, mas porque corrompe ou rasura aquele que é o sentido originário. Daí o seu carácter diabólico porque, teologicamente, o diabo é não só o corruptor da alma, mas também aquele que visa o apagamento de uma imagem e semelhança original, isto é, divina (Génesis 1:26). Não deixa, contudo, de ser paradoxal — e de causar um certo embaraço — que para demonstrar o carácter diabólico da citação precisemos, desgraçadamente, de recorrer a citações. Mas que diabo podemos fazer senão citar?
O diabo é não só um citador como ele próprio é, de um certo ponto de vista, uma corruptela: uma citação truncada de Deus. (Alguma literatura mostra-nos o diabo como uma espécie de macaquinho de imitação de Deus e alguns teólogos defendem que todo o vício é, no fundo, uma virtude deturpada.) O que escrevi na publicação anterior dizia talvez menos respeito à teologia do que à etimologia, resumindo-se no seguinte: toda a citação é, em si mesma, diabólica porque divide e duplica. A incompreensão que me foi manifestada prendia-se, todavia, com um ponto específico da argumentação: por que razão a citação, ainda que exacta, produz o esquecimento da origem? O que a citação faz não é precisamente o contrário: apontar para ela, reconduzindo-nos ao texto de que foi extraída e ao autor que a proferiu? Explico-me, recorrendo à cobardia do exemplo.
Por toda a parte se debita um determinado passo de Samuel Beckett, passo que está, aliás, em vias de se tornar uma atroz banalidade: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.» Poucos sabem que pertence a um dos últimos trabalhos de Beckett, intitulado Worstward ho (há uns anos, Miguel Esteves Cardoso traduziu-o como Pioravante Marche), e menos ainda o terão lido. Se o fizessem, mostrar-se-iam certamente menos prontos a citar essa passagem como quem invoca uma máxima motivacional numa sessão para jovens empreendedores. Por que não também citar estoutro passo: «Tentar outra vez. Falhar outra vez. Melhor outra vez. Ou melhor pior. Falhar pior outra vez. Ainda pior outra vez. Até fartar de vez. Vomitar de vez. Partir de vez.»? Um exemplo pessoano, ainda: «Minha pátria é a língua portuguesa.» Faz agora dez anos, nos ensaios de mesa de Turismo Infinito, António M. Feijó dizia-nos que não há «político de helicóptero» que não cite esta passagem do Livro do Desassossego, fazendo-nos crer que diz uma coisa que não diz. Mas, uma vez restituída a frase ao seu contexto original, ela adquire um sentido imprevisto e inteiramente diverso daquele com que é tão enfaticamente citada: «Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.»
Nestes dois casos, a citação parece precisamente redundar no esquecimento do texto, não apenas porque o dispensa, mas porque corrompe ou rasura aquele que é o sentido originário. Daí o seu carácter diabólico porque, teologicamente, o diabo é não só o corruptor da alma, mas também aquele que visa o apagamento de uma imagem e semelhança original, isto é, divina (Génesis 1:26). Não deixa, contudo, de ser paradoxal — e de causar um certo embaraço — que para demonstrar o carácter diabólico da citação precisemos, desgraçadamente, de recorrer a citações. Mas que diabo podemos fazer senão citar?
30 outubro 2017
Coisas do diabo
Toda a citação é diabólica. Não apenas a citação truncada, a citação que corrompe o texto, a citação que mente. O diabo não é somente mentiroso, caluniador, má-língua. O grego diábolos significa também aquele que separa, aquele que divide. (Daí que toda a máquina de divisão ou duplicação, como o espelho e a fotografia, tenha sido historicamente tomada como demoníaca.) Ao citarmos, ainda que com académico escrúpulo — ou sobretudo com académico escrúpulo —, manifestamos uma vocação diabólica porque a citação opera uma excisão, separando uma proposição do discurso que lhe deu origem e sentido. Tal divisão é efectiva, e redunda virtualmente no esquecimento do próprio texto em que a frase citada ocorre. Um teólogo católico a que voltei este Verão, o sentimental Henri Nouwen, diz que o desígnio do diabo é precisamente o de produzir um esquecimento em nós: o esquecimento de uma origem. Isto parece-me igualmente válido para a citação.
26 outubro 2017
O demónio, esse citador
Satan addressing his potentates (ca. 1816-1818), de William Blake
Ouvi na televisão que um juiz desembargador do Porto citou a Bíblia para justificar as agressões de um marido traído (e — terei ouvido bem? — de um ex-amante) a uma «mulher adúltera». Isto nada prova contra a Escritura, e não chega sequer a agravar a sua fama. (O nosso Nobel da Literatura estimara-a já como um «manual de maus costumes».) Não esqueçamos que o próprio diabo cita o texto sagrado. É o que sucede no episódio das tentações de Jesus no deserto, quando o demónio cita escrupulosamente o Salmo 91. É, aliás, este episódio dos Evangelhos que António, esse cristão tão caridoso, tem em mente ao advertir Bassânio contra o judeu Shylock, que habilidosamente lançara mão de uma narrativa veterotestamentária sobre Jacob e o sogro deste, Labão:
O diabo cita a Escritura p’ra seu propósito.
A alma vil gerando testemunho santo
É como um vilão pondo no rosto um sorriso,
Maçã de bom aspecto podre no seu âmago.
William Shakespeare — O Mercador de Veneza (trad. Daniel Jonas)
O demónio é um citador. Tem sempre na ponta da língua um versículo bíblico adequado à circunstância. Nos acampamentos de Verão evangélicos, arrebataria o primeiro prémio nessa modalidade olímpica ainda não reconhecida que dá pelo nome de destreza bíblica. Vladimir Soloviev — poeta e filósofo russo da segunda metade do séc. XIX que se tornou especialmente próximo de Dostoievski — vai mais longe ainda: numa novela, figura o Anticristo a ser distinguido com o doutoramento honoris causa em Teologia Bíblica pela Universidade de Tübingen. Evidentemente, demonizar o juiz desembargador seria não apenas excessivo como inteiramente inadequado, pois outorgaria à obtusidade e ao cretinismo um glamour que só ao Satanás de Milton e Blake é devido. Em todo o caso, sempre que me dizem que alguém citou a Bíblia, estremeço. Eu próprio cito amiúde a Escritura, o que talvez devesse pôr em guarda aqueles que comigo ainda admitem conviver.
20 outubro 2017
Tempos difíceis*
Hesitei longamente em escrever aqui sobre os acontecimentos de domingo. Seria deplorável usar o sofrimento, a agonia e a devastação para exercícios de estilo. Porém, de que outra coisa se pode falar sem que o silêncio sobre o dia 15 de Outubro pareça — ou seja, de facto — um sinal de indiferença face ao horror? Lembro-me de um punhado de versos de Brecht: «Que tempos são estes, em que/ Uma conversa sobre árvores é quase um crime/ Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?» Curiosamente, B.B. reincidiu muitas vezes nesse crime, e estamos-lhe gratos por isso. Quando os mais terríveis acontecimentos dilaceravam a Europa, dedicou alguns dos seus mais belos textos a árvores: abetos que de manhãzinha são cor de cobre, macieiras em flor, as bagas negras de um sabugueiro da infância, uma ameixeira que nunca deu uma ameixa. Há mesmo um poema que ensina a trepar às árvores: «Esperai pela noite entre a folhagem...» Dá-se agora que falar sobre a monstruosidade do passado domingo implica também conversar sobre árvores. Condescendam que o faça, reconhecendo que não é a face mais terrível do desastre: perderam-se vidas, e muitos viram-se depredados não apenas de tudo quanto possuíam, mas também daqueles que amavam.
Neste dia 15, desapareceu um dos lugares mais importantes para a Abigail e para mim: as matas da zona da Marinha Grande e de São Pedro de Moel, matas que fazem parte do Pinhal de Leiria, e nas quais, em criança, a Abigail passou muitas tardes de domingo com os pais e as irmãs. Ao longo destes vinte anos juntos, visitámos em diversas ocasiões esse lugar. Tomo agora consciência de que não o fazíamos há muito tempo, mas lembro-me bem de que, num certo período, quando íamos a Leiria, sobrepesávamos o carro – na época, um VW Polo de apenas 999 cc – com uma inusitada quantidade de garrafões que enchíamos nas fontes de água dessas matas. Foi, aliás, por ali que nos conhecemos, num local chamado Água de Madeiros, corria o ano da Graça de 1995. Não possuo o virtuosismo que me habilitaria a descrever essas matas com propriedade. Percorrendo-as a pé ou mesmo de carro, era possível sentir o poder do lugar, o modo como, a cada curva, surgiam maciços de árvores, clareiras, miradouros, perspectivas. Não era apenas essa qualidade fotográfica que fazia a beleza do lugar. Foi ainda todo um luxuriante património de sons e cheiros que desapareceu de modo irreparável no passado domingo. Aquele era também um sítio onde — com ganho — podíamos permanecer de olhos fechados. O pequeno Benjamim que aí vem não irá já conhecer esse lugar como a mãe, em criança, o conheceu — e isso encheu-me de uma tristeza difícil de vencer. É também como diz um verso de Brecht: os incêndios precederam o filho. Não iremos dormitar sob um tecto de folhagem densa num dia de Sol, tendo o restolhar das árvores por banda sonora, nem caminhar por ali fazendo estalar os gravetos sob os nossos pés. De facto, é como reza o apólogo de Hegel: É só na escuridão que a coruja de Minerva inicia o seu voo. Quer dizer: apenas quando alguma coisa se perde de modo irreparável nos tornamos aptos a fazer-lhe justiça.
* Título de um dos poemas de Brecht sobre árvores. A propósito deste poema, Roberto Calasso escreve que «nenhuma denúncia explícita dos males do mundo possui a intensidade destes poucos versos indirectos e reticentes».
Neste dia 15, desapareceu um dos lugares mais importantes para a Abigail e para mim: as matas da zona da Marinha Grande e de São Pedro de Moel, matas que fazem parte do Pinhal de Leiria, e nas quais, em criança, a Abigail passou muitas tardes de domingo com os pais e as irmãs. Ao longo destes vinte anos juntos, visitámos em diversas ocasiões esse lugar. Tomo agora consciência de que não o fazíamos há muito tempo, mas lembro-me bem de que, num certo período, quando íamos a Leiria, sobrepesávamos o carro – na época, um VW Polo de apenas 999 cc – com uma inusitada quantidade de garrafões que enchíamos nas fontes de água dessas matas. Foi, aliás, por ali que nos conhecemos, num local chamado Água de Madeiros, corria o ano da Graça de 1995. Não possuo o virtuosismo que me habilitaria a descrever essas matas com propriedade. Percorrendo-as a pé ou mesmo de carro, era possível sentir o poder do lugar, o modo como, a cada curva, surgiam maciços de árvores, clareiras, miradouros, perspectivas. Não era apenas essa qualidade fotográfica que fazia a beleza do lugar. Foi ainda todo um luxuriante património de sons e cheiros que desapareceu de modo irreparável no passado domingo. Aquele era também um sítio onde — com ganho — podíamos permanecer de olhos fechados. O pequeno Benjamim que aí vem não irá já conhecer esse lugar como a mãe, em criança, o conheceu — e isso encheu-me de uma tristeza difícil de vencer. É também como diz um verso de Brecht: os incêndios precederam o filho. Não iremos dormitar sob um tecto de folhagem densa num dia de Sol, tendo o restolhar das árvores por banda sonora, nem caminhar por ali fazendo estalar os gravetos sob os nossos pés. De facto, é como reza o apólogo de Hegel: É só na escuridão que a coruja de Minerva inicia o seu voo. Quer dizer: apenas quando alguma coisa se perde de modo irreparável nos tornamos aptos a fazer-lhe justiça.
* Título de um dos poemas de Brecht sobre árvores. A propósito deste poema, Roberto Calasso escreve que «nenhuma denúncia explícita dos males do mundo possui a intensidade destes poucos versos indirectos e reticentes».
18 outubro 2017
«La commedia è finita.»
«A palavra tragédia é uma palavra preciosa.»* Converteu-se em moeda corrente, empregamo-la para todo o despropósito. Mas confiamos nela — ou confiamo-nos a ela — quando sentimos a necessidade de conferir algum valor, alguma dignidade à catástrofe, ao infortúnio, à devastação. Quando a usamos, queremos dizer: este sofrimento é excepcional. Na edição de ontem do jornal Público — a edição que exibia na capa a fotografia de Adriano Miranda que abusivamente postei aqui —, a palavra tragédia ocorria 17 vezes. (Não contabilizei a ocorrência do adjectivo trágico/trágica.) Mas ocorria também, uma única vez, a palavra comédia. Figurava na última página do jornal, no título da crónica que João Miguel Tavares escreveu sobre o cataclismo deste domingo: «Uma comédia chamada Estado português». A palavra não voltava a aparecer no corpo do texto (embora o termo tragédia sim) e o título não era propriamente explicado, embora chegássemos lá facilmente. Não vou pronunciar-me sobre o teor do artigo, não é isso que me interessa. A mim — que esta manhã tive de falar aos meus alunos sobre os conceitos de tragédia e comédia na Antiguidade clássica —, chamou-me a atenção que um jornal enxameado pela palavra tragédia terminasse, ironicamente, com a palavra comédia. Quem visse diante de si, no café ou no metro, alguém a segurar o jornal aberto, poderia ler, à direita, a manchete «Quatro meses, mais de 100 mortos» encimada pelo grande plano de um velho radicalmente só num cenário de desolação e, logo ao lado, um título com a mais inesperada das palavras: comédia. É tudo uma questão de perspectiva, como sugere a máxima de Chaplin: Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot? Numa ópera intitulada Os Palhaços, o que é cómico no palco revela-se trágico na vida: La commedia è finita.
* Adrian Poole, Tragedy: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2005.
* Adrian Poole, Tragedy: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2005.
17 outubro 2017
Mostrar ao mundo
Foto de Adriano Miranda publicada na capa da edição de hoje do Público
Sou como o que trazia um tijolo consigo
Pra mostrar ao mundo como era a sua morada.
Bertolt Brecht — Poemas do Exílio
13 outubro 2017
Uma ária na flauta
Na aula de ontem, despendi os melhores esforços a explicar aos meus alunos por que razão eles devem ler os clássicos. Por vezes, este argumentário redunda numa atitude catequética algo rançosa – lemos os clássicos para compreender quem somos – ou em enfáticas sublimidades à la George Steiner: os clássicos contêm a gramática do humano. Sucede que nenhum dos argumentos que podemos invocar supera — em verdade — aquele que subjaz a esta historieta relatada (ou efabulada) por Cioran: «Enquanto lhe preparavam a cicuta, Sócrates pôs-se a aprender uma ária na flauta. “Para que te servirá?”, perguntaram-lhe. “Para saber esta ária antes de morrer.”» Perdemos tempo a esgrimir argumentos: como diz Macbeth, a nossa espada grava em falso. Devemos ler os clássicos porque, conforme conclui Calvino, é melhor lê-los do que não os ler.
12 outubro 2017
O grande ausente
O Pelicano, de Strindberg, encenação Manuel Tur | foto João Tuna
Em vez da «sala de visitas» prevista por Strindberg, a cena figura um imenso espelho em estilhaços. As personagens de O Pelicano ferem-se, dilaceram-se, mas não sangram. Sofrem hemorragias internas. O sangue é metafórico: «Tal como o pelicano, que com o seu próprio sangue alimenta os filhos…» O Padre António Vieira chamava ao espelho diabo mudo. Este espelho quebrou-se de modo irreparável – e agora o demónio desatou a falar.
Não nos é dado assistir ao estilhaçamento: o que o provocou? A morte do Pai, que veio quebrar o polido continuum da vida familiar. Embora nunca compareça como fantasma – não é visível nem ao espectador nem a qualquer das personagens –, o Pai está sempre presente: na chaise longue em que «soltou o último suspiro» e que agora a Mãe se vê forçada a adoptar como cama; na cadeira de baloiço em que costumava instalar-se e que se move várias vezes ao longo da representação, aterrorizando a Mãe. Não podemos imputar essa movimentação a causas sobrenaturais; as didascálias de Strindberg fornecem explicações razoáveis. Mas o Pai revela-se o medium da verdade: é através de uma carta póstuma, de uma carta que chega da morte, que os filhos despertam do sono (essa «morte contrafeita», como se diz no Macbeth) e acedem à verdade sobre a vida. Fredrik descreve-o nos termos de uma aparição: «A Gerda e eu fomos visitados por uma alma do outro mundo.» Num ensaio que dedica a um descendente de Strindberg – Eugene O’Neill –, Jean-Pierre Sarrazac faz notar: «No teatro, é preciso procurar o ausente, o Grande Ausente, aquele que, a partir de um limiar de invisibilidade, orienta o drama.» Ao longo de toda a peça, a Mãe toma-se pelo pelicano, mas no final perceberemos que a personagem titular não chega sequer a entrar em cena: «Ele, afinal, é que era o pelicano.»
Excerto de um texto publicado no programa de sala de Retrato de Família (Teatro Nacional São João, 2017). O Pelicano estreia hoje no Teatro Carlos Alberto e mantém-se em cena até ao dia 21 de Outubro.
09 outubro 2017
Morrer acima das minhas possibilidades
Reflexão dominical. «Não podemos continuar a viver acima das nossas possibilidades.» Durante os anos em que vigorou o Programa de Assistência Económico-Financeira, vivemos sob este refrão mortificante como um cilício. Lembrei-me dele por estes dias, ao assistir a um directo televisivo do lamentoso Conselho Nacional em que Pedro Passos Coelho anunciou a sua despedida da liderança de um partido em tempos conhecido como PSD. A sentença — porque de uma sentença se tratava, de facto — é-lhe frequentemente atribuída, mas nesses anos de 2011 e 2012 era um credo fervorosamente partilhado (e metralhado) por uma caterva de insignes figuras: o Presidente da República de então, economistas e conselheiros de Estado, para além dos diáconos da Opinião, essa religião babilónica. A asserção — uma elementaríssima manifestação de sensatez — tornou-se-nos odiosa e é hoje apenas proferida com escarninha ironia. Talvez haja nela algo de efectivamente medíocre, como viu Oscar Wilde: Anyone who lives within their means suffers from a lack of imagination. (Até para gastar dinheiro é preciso talento.) Não é, contudo, esta máxima de Wilde que tanto me apraz opor ao judicioso e maçador «Não podemos viver acima das nossas possibilidades», mas uma formulação que estimo muito, embora por razões que não estariam no espírito do autor. Conta-se que, ao agonizar, Oscar Wilde terá pedido champagne (o que também Tchékhov terá feito), declarando: «Morro acima das minhas possibilidades!» Ora, é precisamente isso que todo o protestante espera. Na hora da morte, estarei de mãos vazias — nenhum feito, nenhuma boa obra, nenhum mérito, nenhum bem, nada para apresentar em meu favor. E, no entanto, espero receber tudo: tudo a que não tenho direito. Morrerei, enfim, acima das minhas possibilidades. São Paulo, Agostinho, Lutero e muitos outros chamaram a isso Graça. É como diz o Salmo 23: O meu copo transborda.
08 outubro 2017
Abre-latas
Gosta que os amigos partilhem com ele as suas dúvidas existenciais. Está sempre pronto a fornecer conselhos matrimoniais e a perorar sobre o pós-humano. Mas não lhe peçam que explique como funciona o abre-latas.
07 outubro 2017
A prova que Deus nos deu da existência do Inferno
foto Diana Lopes
06 outubro 2017
Uma espécie de inocência
Ele não tinha carácter. Não é que tivesse mau carácter. Simplesmente, nele o carácter não chegara a formar-se.
04 outubro 2017
Those who can’t teach, teach gym
30 setembro 2017
Cultura, ou como lhe queiram chamar
Karl Kraus: disfarçado de satirista, um canibal entrou na civilização.
Dia de reflexão. O grande acontecimento das Autárquicas 2017 será — sub conditione Jacobaea — a eleição do meu irmão gémeo como Vereador da Cultura do município de Viseu. (O livro de estilo da Mosca dispensaria a caixa alta em ‘vereador’, mas admitamo-la a título excepcional.) Ignoro que predicados se exigem a um vereador que detenha este pelouro, mas há pelo menos uma coisa para a qual o meu gémeo precisa de estar preparado: enunciar uma definição de cultura. Quando um petiz do ensino primário do Mundão ou de Cavernães perguntar «Senhor Vereador, o que é a cultura?», não cairia bem responder: «Sei o que é, mas não sou capaz de explicar.» (Ou, como o Professor d’A Lição, de Ionesco: «Ui, isso levar-nos muito loooooooooonge!») De facto, não é tarefa fácil porque o conceito é volúvel e assaz elástico, abrangendo uma multiplicidade de fenómenos: da Divina Comédia e dos concertos de Bartók às boas maneiras e ao saneamento básico, passando pelos inefáveis ‘saberes e sabores’. Há definições que se tornaram tão clássicas que são já atribuídas a diversas personalidades. É o caso da seguinte: «Cultura é o que permanece quando se esqueceu tudo o que se aprendeu.» É uma definição interessante porque propõe uma demarcação entre cultura e informação, entre cultura e essa coisa repugnante como um mictório público que é a cultura geral. A minha definição preferida de cultura pertence, todavia, ao satirista vienense Karl Kraus, o autor d’Os Últimos Dias da Humanidade. Talvez o meu mano queira citá-la no seu primeiro discurso oficial. Reza assim: «Cultura é a muleta com que o coxo bate no são para mostrar que também a ele não faltam as forças.» (Pois, convém voltar atrás e ler outra vez.)
29 setembro 2017
«A força de um poema, quer dizer, de um crime»
Os Negros, de Jean Genet, enc. Rogério de Carvalho (TNSJ, 2006); foto João Tuna
É bem conhecida a imagem milenar de Heraclito: não nos banhamos duas vezes nas mesmas águas de um rio. Não é apenas a água que muda. Como insistia Jorge Luis Borges, nós não somos menos fluidos do que o rio. De cada vez que lemos um texto, o texto não é o mesmo. Não porque seja mudável como o livro de areia de um conto de Borges, mas porque nós não somos mais os mesmos. Talvez não exista essa coisa a que chamamos reler: ler é sempre ler pela primeira vez. (Por alguma razão, assinalamos passagens diferentes de cada vez que lemos uma obra, e frequentemente, quando voltamos a um livro há muito lido, não somos mais capazes de discernir o motivo que nos levou a sublinhar este ou aquele passo.)
Em 2017, Rogério de Carvalho lê pela primeira vez Os Negros, depois de ter lido a peça há mais de trinta anos, quando encenou esta macabra clownerie no Teatro do Século, com um elenco constituído por actores brancos, pervertendo a regra e a ordem de Saint Genet, para citar o título do famigerado estudo de Sartre. O encenador leu-a também em 2006 no palco do Teatro Nacional São João, em condições de produção radicalmente distintas e com um elenco que agregava actores de «um belo negro lustroso»: angolanos, moçambicanos, um são-tomense, uma cabo-verdiana e portugueses de ascendência africana. Entre a primeira encenação e a derradeira — aquela que agora se apresenta aos espectadores do São Luiz (5-15 de Outubro) —, não há progresso. Quer dizer: as três encenações não representam necessariamente estádios de uma evolução, etapas da decifração progressiva de um enigma, mas formas distintas de organizar o escândalo, o jogo, a cerimónia, o delírio, a possessão. Sabe-se agora mais, mas é preciso aprender tudo de novo. Com textos como Os Negros — textos que possuem «a força de um poema, quer dizer, de um crime» (Genet) — nunca se volta a casa, mas a um lugar onde se permanece um estranho. O texto já não é o mesmo que Rogério de Carvalho leu há trinta, ou mesmo há dez anos. O leitor não é o mesmo. Nós, espectadores, não somos os mesmos.
Excerto de «Missa en abyme», texto escrito para a folha de sala de Os Negros, de Jean Genet, enc. Rogério de Carvalho (São Luiz Teatro Municipal, Outubro de 2017). Agradeço a Aida Tavares mais este amabilíssimo convite.
25 setembro 2017
Espelho meu
Robert Walser, «o poeta mais secreto que alguma vez existiu» (Elias Canetti)
Há muitos anos escrevi copiosamente sobre a Branca de Neve de Robert Walser, um texto que conheci através do escandaloso e, ao mesmo tempo, tão pudico filme de João César Monteiro. Nos seus Dramoletten, Walser retoma os contos de fadas no ponto em que terminam, mas não se trata apenas disso: escreve-os quando terminam, isto é, quando o seu encantamento, como um espelho polido, se parece ter quebrado em mil pedaços. (A trasladação do conto de fadas para o espectáculo e a etnografia é o sinal dessa extinção.) A este propósito, lembro-me muitas vezes de um discurso de Thomas Bernhard: «Viver sem contos de fadas é mais difícil. Por isso, é tão difícil viver no século XX.» Os dramalhetes de Walser têm tudo que ver com a falência desse encantamento, ao mesmo tempo que produzem um paradoxal efeito encantatório, inebriante, quase narcótico: como acontece ao Príncipe de Branca de Neve, «o meu ouvido fica suspenso como uma orelha numa rede de embalar...» Por motivos que não vêm agora ao caso, voltei há dias a esta pequena obra-prima. Procurava o passo que agora transcrevo abaixo. E já mal me lembrava de quão bela Branca de Neve é, mas a sua beleza é daquele tipo que causa um arrepio de frio. Por alguma razão, no mesmíssimo discurso, Bernhard confessa: «Tenho cada vez mais frio...»
Sim, com todo o gosto. Oh, sim,
e por que não sim a tudo
quanto dizes? Dizer sim faz
muito bem e é muitíssimo
doce. Acredito em ti. Sim,
mesmo que mintas, construas
contos que cheguem ao céu,
me apresentes mentiras toscas
e patetas, mesmo assim
acreditarei sempre em ti.
Tenho que dizer sim, sempre
sim. Nunca como agora uma
crença cresceu tão bela assim
em mim, nem uma confissão
foi tão doce como este sim.
Diz o que quiseres, creio em ti.
Robert Walser — Branca de Neve
24 setembro 2017
Caixa de fósforos #05: Isidro Ferrer
Páginas de Caprichos, um livro do designer e ilustrador espanhol Isidro Ferrer (Bedeteca de Lisboa, 2001).
23 setembro 2017
Intolerante, sim, mas de esquerda.
É estranho: durante anos a fio, ignoramos a existência de uma figura histórica, um livro, uma canção, um acontecimento, e num único dia — ou mesmo num espaço de horas — atravessa-se no nosso caminho duas vezes. («Não há coincidência burra», adverte Nelson Rodrigues.) Esta manhã, antes de sair de casa, publicava neste blogue uma formidável máxima de Adlai Stevenson — de quem, em rigor, nada sabia até ler um romance de Saul Bellow — e, no final da noite, revi Annie Hall, dando-me conta que Alvy Singer, o comediante inescapavelmente neurótico interpretado por Woody Allen (I’m a bigot, but for the Left!), é apoiante de Adlai Stevenson, participando numa das acções de campanha do candidato democrata às eleições presidenciais americanas. Aqui fica o início do discurso de Alvy (que não consta do videozinho do YouTube), para a eventualidade de algum candidato da oposição nestas autárquicas o pretender parafrasear num comício ou debate televisivo: I interestingly had dated a woman in the Eisenhower Administration briefly. And it was ironic to me ‘cause I was trying to do to her what Eisenhower has been doing to the country for the last eight years.
22 setembro 2017
Wanting to be elected
A campanha para as eleições autárquicas começou oficialmente há dois ou três dias. O meu gémeo-génio concorre neste acto eleitoral, no concelho de Viseu. Acho que nunca ambicionei ser político, mas sempre apreciei o papel do conselheiro do príncipe. O concurso destas duas circunstâncias impele-me agora a debitar conselhos. (Há muitos anos, um presidente a quem foi perguntado «De quem recebe conselhos?» declarou com admirável desassombro: «Não gosto de receber conselhos, gosto de receber presuntos.» O presunto aumenta o nível de ácido úrico no sangue e, convenhamos, um conselho fica mais em conta.) O primeiro que pretendo doar é um conselho democrático: destina-se a todos os candidatos, independentemente do seu quadrante político, círculo eleitoral e número de dioptrias. Provém de um homem que encarnou as grandes esperanças da América intelectual e progressista dos anos 50, e que infalivelmente acabaria derrotado — por duas vezes — nas eleições presidenciais norte-americanas contra o general Eisenhower. Que dizia este homem, de seu nome Adlai Stevenson? Wanting to be elected disqualifies you for the job.
20 setembro 2017
Suspender o dia
Nos últimos anos, tenho trabalhado de perto com um encenador, Nuno Carinhas, cujos espectáculos abrem frequentemente com uma cena não escrita, uma cena que o texto não prevê. Forneço um exemplo geminado, digamos: no início de Alma (2012), de Gil Vicente, o espectador entrevia na semiobscuridade uma série de corpos estendidos, em posição fetal: personagens à espera do seu tempo?, cadáveres juncando um campo de batalha? Algo análogo ocorria na abertura do Macbeth estreado em Junho deste ano: a cena figurava um território de desolação com corpos jacentes, ou um caos primordial — o tohu e bohu do teatro, com cabos suspensos e ferros no chão — onde se formavam figuras. Que pretendiam estas cenas de abertura, estas antecâmaras da acção? Produzir uma cesura com o nosso tempo, suspender o dia, e instaurar o espaço-tempo do ritual. O teatro estabelece uma relação muito particular com o tempo, mas reencontramos este desígnio também fora dele: um escultor como Rui Chafes assevera que «não existe arte se não houver a ambição de parar o tempo». Talvez neste ponto radique o elemento revolucionário de alguma arte. Um incidente ocorrido no primeiro desses três dias gloriosos de 1830 que ficaram conhecidos como a Revolução de Julho pode ajudar-nos a reconhecê-lo. Walter Benjamin relata esse incidente nas suas teses sobre a filosofia da História: «Chegada a noite do primeiro dia de luta, aconteceu que, em diversos locais de Paris, várias pessoas, independentemente umas das outras e ao mesmo tempo, começaram a disparar contra os relógios das torres.» Os revolucionários não queriam acelerar o tempo, mas pará-lo: «Alvejavam os relógios para suspender o dia.»
16 setembro 2017
Parar o tempo
Quando jovem, muito jovem, o meu pai trabalhou como relojoeiro: consertava relógios. Muitos anos depois dessa transitória ocupação, era ainda capaz de desmontar e remontar a máquina de um relógio sem que sobejassem peças. Gostava de abri-los e ponderar o seu pasmoso maquinismo. Faz-me lembrar o pai de A Terra Onde o Tempo Parou, de Bohumil Hrabal, que desmontava o motor de um Škoda 430 apenas para saber «porque é que aquela máquina trabalhava com tanta perfeição, porque é que não tinha falhas» — «o seu trabalhar era tão perfeito que tirava o sono ao pai». Lembro-me que, já depois de sofrer um AVC que lhe tolheu a destreza e o emudeceu, o meu pai pediu a um amigo que abrisse o relógio que trazia no pulso, apenas para confirmar a suspeita de que o relógio do amigo não passava de uma réplica ordinária de um Breitling. Agora que falo nestas coisas, recordo-me também de que no ano 2000 — quando eu leccionava Semiótica em Bragança (que Deus me perdoe) — perdi um relógio (um Certina?) que o meu pai me emprestara para a vigilância de um exame. Ficou esquecido numa daquelas camionetas da Rodoviária Nacional que sacolejavam aflitivamente IP4 acima. Nunca cheguei a indemnizar o meu pai dessa perda. Acho que ele também não o quereria. Preferiria por certo que eu lhe desse um pouco mais do meu tempo. Porque quando alguém que amamos nos dá do seu tempo, o nosso detém-se.
15 setembro 2017
500 anos de democracia e paz
Como dizia o outro, em Itália, durante trinta anos, sob o domínio dos Bórgias, houve guerras, terror, assassínios e derramamento de sangue, mas produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça houve amor fraternal e tiveram 500 anos de democracia e paz – e o que é que produziram? O relógio de cuco.
— The Third Man (1949), realização de Carol Reed, argumento de Graham Greene. (Estas linhas, contudo, foram introduzidas pelo punho do actor, Orson Welles.)
14 setembro 2017
Considerações intempestivas
fotograma de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957)
O tempo foge, ou o tempo permanece? «O tempo desconcertou-se», como no Hamlet, e os ponteiros saltaram dos gonzos, ou — como no Breve Sumário da História de Deus, de Gil Vicente — «este relógio nam se destempera: é muito certo e muito facundo»?
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